quarta-feira, julho 30, 2008

Sobre a estrada, a amizade e o amor.

Eu não falo na estrada em si, antes prefiro falar do despertar. Acordar em meio a toda a delicadeza e estranheza, comum na entrega que fazemos do nosso corpo ao desconhecido. Antes sozinho, quando tudo que me restava era senão recordar, imagens vertiginosas, por do sol em Búzios, fragmentos de madrugadas insones... agora acompanhado existem dedos, deslizes de pele lisa no meu corpo, perfume natural, narizes em brasa quente, é um passo natural.

É exatamente neste limbo caótico que ele me deu um beijo no rosto, nos abraçamos como irmãos e, montou na sua velha moto, saiu, foi viajar, sem caminho. Feito os filmes hediondos de um passado a muito esquecido. E eu sentei para descansar com meu velho rótulo vermelho a me esperar. O uísque quente e amargo feito a vida, me remete a outra atmosfera, algo muito mais caótico, o verdadeiro Cabo das Tormentas, um caos que prima por ser apenas caos. Voltando no tempo, no dia que nos conhecemos, bebíamos vinho. Eu dizia ter saído de um relacionamento conturbado, e ele me dizia ter saído do próprio inferno na terra. A amizade foi imperativa, não foi um desejo nem uma ânsia, foi um passo natural.

Do mesmo jeito que essa amizade foi palavra de ordem, agora ele precisava pegar a estrada e esquecer a si mesmo. Sucessões que facilmente passam despercebidas como a água que cai, volta para o céu e torna a cair. Foi nessa mesma naturalidade que conheci ela, que o imperativo acabou no óbvio da cama, que o óbvio da cama descambou pela tangente, não aceitamos o óbvio da despedida. Hoje eu, ela, o jazz, a estrada e o uísque somos um só. Eu, um libido perdido e um sistema sentimental em pedaços, depois, compreensão, doçura e finalmente amor; natural como deve ser, por vezes, existem correções de curso, o natural foi corrigido, estamos juntos e continuaremos juntos.

2 comentários:

Fabrício Romano disse...

Bem escrito. Bom texto. Texto inquieto. Assim que se escreve. Fico me perguntando por que tem gente que considera qualquer merda baseada no sobrenome do autor como uma grande obra. Tem tanta coisa boa escondida por ai... achei uma dessas aqui, vou ler outros posts... abç.

Lenissa disse...

� verdade, muito bem escrito. Denso... gostei da visita, vou voltar mais vezes. Vim retribuir sua visista ao Centelhas de Id�ias. Valeu - abra�o.