Um disco que começa com “Gimme Shelter” merece no mínimo uma audição de respeito, essa canção que não só mostrava como a banda foi abalada com o incidente do show em Altamont mas também é uma simbologia perfeita para o “Sonho Acabou” era o fim da utopia hippie. Ainda sim é um disco de sangue, sangue com barro, country, blues e gospel, tudo misturado, queimando e combinando feito a receita para o apocalipse. Maníacamente desesperados como em “Live With Me”; o blues assassino de “Midnight Rambler”; o épico moralista, com direito a coro de igreja e um honky tonky sacana de “You Can't Always Get What You Want” o qual, reza a lenda, Mick escreveu no seu quarto com um violão apenas e depois parodiou dizendo que seria hilário ter um coro acompanhando.
Neste disco a participação do Brian Jones já foi bastante reduzida, e mesmo o seu substituto teve uma ponta modesta sendo assim a maioria das guitarras foram gravadas mesmo pelo Keith. O velho pirata nesta época andava bastante com Gram Parson, recém saído do Byrds, o que nos justifica totalmente a forte influência de Country que aparece por aqui.
É incrível como este disco se enquadra perfeito no quarteto de discos que os Stones lançaram no final dos 60. É uma quadra maravilhosa, começando no Beggars Banquet, Let It Bleed, Sticky Fingers e Exile on Main Street. São quatro dos discos mais importantes do Rock da terra da rainha.
segunda-feira, outubro 08, 2007
Rolling Stones - Let It Bleed (1969)
Recomendação de Peças - São Paulo.
Vou deixar duas recomendações de peças que estão em cartaz em São Paulo. Em breve também estréia a nova da Companhia Elevador de Teatro Panorâmico. Um breve comentário, Pirandello é um dramaturgo incrível, um dos pilares do Teatro do Absurdo, e também é bem difícil de se ver algo dele montado, vale uma conferida. Closer é a peça que surgiu do mesmo texto que veio o recente filme da Natalie Portman, a versão de teatro ganha em uma fidelidade maior ao original, o que me agrada mais.
ASSIM PARECE Texto: Luigi Pirandello.Direção e adaptação: Alex Brasil.Com: Grupo de Teatro Meio. Comédia inspirada no texto "Assim É se Lhe Parece", de Pirandello. Diante de dois suspeitos, os moradores de uma cidade não conseguem descobrir qual deles é louco e está mentindo.www.satyros.com.br. Espaço dos Satyros 1 (pça. Franklin Roosevelt, 214, República, região central, tel. 3258-6345). 50 lugares. Sex.: 19h. Até 2/ 11. 60 min. 14 anos. Ingr.: R$ 5 (p/ moradores da pça. Roosevelt) e R$ 20. DESC. 50% PARA ASSINANTE E UM ACOMPANHANTE COM CUPOM CLUBEFOLHA.
CLOSER Texto: Patrick Marber.Direção: Florência Gil.Com: Rachel Ripani, Amazyles de Almeida, Daniel Faleiros e Joca Andreazza. Trata-se da peça que inspirou o filme de Mike Nichols. Na trama, que tem cenas diferentes e outro desfecho em relação ao cinema, focam-se os relacionamentos amorosos de um quarteto de classe média em Londres.www.teatroaugusta.com.br. Augusta - sala principal (r. Augusta, 943, Consolação, região central, tel. 3151-4141). 302 lugares. Sex.: 21h30. Sáb.: 21h. Dom.: 19h. Até 7/10. 90 min. 15 anos. Ingr.: R$ 30 (sex.) e R$ 40 (sáb. e dom.).
quinta-feira, outubro 04, 2007
Cidade dos Sonhos - Mulholland Dr. (2001)
Direção – David Lynch (História Real, Inland Empire, Estrada Perdida e Veludo Azul)
“Apesar que agora agente acha poesia até em caixas vazias de hamburger.”
Se você não assistiu e deseja ter a experiência mais longe de lucida possível saiba apenas: É uma história de amor desenvolvida na cidade dos sonhos. Isso é mais do que suficiente para instigar a curiosidade do que raios vocês estará vendo.
Esse é talvez o maior filme que eu tenha visto em tese no lançamento, mesmo que tardio, em uma sala de cinema. Veio antes do advento da Internet, quando se tinha que correr ao circuito alternativo de cinemas para poder assistir algo de um Lynch ou de um Amoldóvar. E talvez a experiência de ter assistido sem esperar nada, em uma sala de cinema com sua lotação pela metade colaborou e muito. Pare de ler agora e vá assistir, se continuar posso estragar tudo.
“Shhhh no hay banda”
Além de um filme, Cidade dos Sonhos é um atentado contra sua própria sanidade. Naomi Watts (em uma atuação impecável) é uma jovem atriz canadense que deseja tentar a sorte em Hollywood, típica garota inocente que acredita que quem corre realmente com empenho atrás de seus sonhos sempre chega lá. As coisas começam a se complicar quando uma atraente mulher chega, sem memória após um terrível acidente de carro, a casa da personagem de Naomi. As duas se identificam e resolvem correr atrás das respostas desta enigmática amnésia.
Porém nesse meio tempo somos apresentados a diversas outras histórias paralelas. Um assassino que acaba por causa muita bagunça para conseguir um caderninho de números. Um jovem diretor de cinema que se depara com uma máfia que comanda todos os filmes de Hollywood. E tudo se mistura de forma cruel, aos poucos realidade e imaginário começam a se mesclar, a relação das duas mulheres se torna sexual e a espiral começa a se tornar mais violenta e abruptamente perigosa. Tudo explode quando uma pequena caixa de Pandora é aberta e então temos uma quebra total do que imaginamos ser realidade. O que é real? Onde estamos?
Chega ser engraçado como Lynch brinca conosco e nos deixa cegos e surdos em meio a tanta informação que pode ou não ser real. A própria cenografia e efeitos são forçadas para o artificial ou para o mais vívido bagunçando os sentidos de quem assiste.
Sou da corrente dos que acreditam que nem mesmo Lynch tem um sentido concreto para todos os elementos do filme. Alguns aspectos ficam bastante subjetivos e nos entregam diversas possibilidades. O filme pode ser um retrato cru do lado mais sombrio dos relacionamentos humanos; a maneira sórdida que a condição humana é submetida para manter a si mesma integra. Essa é uma das várias interpretações que se pode arrancar deste intricado quebra cabeças moderno.
Um fato é que esse filme é uma obra de arte, digno de todas as honras que se pode entregar a algo tão bem feito, com tanto sentido e ao mesmo tempo com nenhum sentido. David Lynch é de longe um dos melhores diretores de cinema em atualidade. Inland Empire seu mais novo filme segue na mesma linha, em breve escrevo algo a respeito.
“É tudo uma ilusão... there is no band.”
Llorando por ti! (não assista se não quiser estragar o filme)
quarta-feira, outubro 03, 2007
Bande à Part - Band of Outsiders (1964)
Direção - Jean-Luc Godard (Viver a Vida, Alphaville, Acossado, O Demônio das Onze Horas e Uma Mulher é uma Mulher)
Um filme sobre um assalto com um ar único de jazz e poesia. Com várias boas seqüências - até mais do que se espera de um filme do gênero - e personagens cativantes e mais fáceis de se identificar do que em seus filmes passados tornam esse um clássico do Godard. O estilo artístico aqui apresentado, a trilha sonora e as atuações fazem deste um filme que influenciou muita gente.
Os dois protagonistas são ligeiramente diferentes, é uma delícia pegar esses pequenos momentos em que essas características conflitam, porém ambos tem a idéia fixa de se tornarem grandes criminosos de classe. Um dos dois acaba por conhecer a belíssima personagem interpretada por Anna Katarina e trata de seduzi-la à ajudar em um próximo grande assalto.
Apesar deste filme muitas vezes ser lembrado por sua cena final, o que faz dele um filme incrível é todo o resto, o recheio, o que nos leva ao plano final. É engraçado como podemos nos manter entretidos do início ao fim mesmo sabendo que se trata de um filme artístico e cheio de momentos de silêncio e experimentos de estética e atuação.
Um dos pontos altos é o trio de protagonistas, os três anti-heróis são extremamente cheio de emoções e mais importante do que isso transmitem tudo com muita graça e espontaneidade. Como sou um fã confesso de Anna Katarina a personagem dela me cativou desde a primeira cena, não é difícil imaginar o porque Godard se apaixonou, casou-se e transformou-a em uma obsessão. Fazendo um pequeno comentário a respeito desta grande atriz, recentemente assisti três filmes com ela: Viver a Vida, Uma Mulher é Uma Mulher e Bande À Part, e de fato ela desempenha três papeis completamente diferentes e de forma bastante convincente, grande trabalho digno de ser acompanhado.
Inclusive uma referência a ser feita é que a cena da dança do filme foi inspiração direta para Tarantino criar a sua famosa dança ao som de Chuck Berry em Pulp Fiction. O pop se come!
Nota: 10/10
As garotas do Nouvelle Vague usaram um trecho do filme neste clipe. Aproveitem a música:
segunda-feira, outubro 01, 2007
Crepúsculo dos Deuses - Sunset Boulevard (1950)
Direção - Billy Wilder (Quanto Mais Quente Melhor, Se Meu Apartamento Falasse, Farrapo Humano, Pacto de Sangue, A Montanha dos Sete Abutres e A Primeira Página - todos maravilhosos)
“Eu sou grande, os filmes que ficaram menores.”
Um roteiro engenhoso, um escritor desconhecido se aproveita de uma decadente estrela do cinema mudo para ganhar algum dinheiro e assim salvar-se das dívidas que o perseguem. Nesse cenário conhecemos a estranha relação entre Joe Gillis e Norma Desmond que entram em uma trama que passeia deliberadamente pela decadente Hollywood. Não quero entregar toda a trama, que é pra lá de perfeita e merece ser vista com o menor prévio conhecimento. Mas posso falar de outros aspectos.
É muito complicado fazer arte, levando em consideração que é extremamente fácil ficar datado e perder a força. Uma idéia genial hoje pode ser algo extremamente fraco amanhã. As grandes obras que se tornam eternas tem algo em comum, elas retratam relações humanas; a relação de uma pessoa com um sonho, de duas pessoas, de uma pessoa e uma situação ou de uma pessoa com si mesma. Quando atingimos este delicado estado criamos algo digno do nome de obra de arte.
Aqui temos um trabalho único de cinema. A cena em que o macaco morto é enterrado ou ainda uma dos desfiles de alegorias que Norma nos entrega são cenas para ficar para história. Até hoje o script é um dos mais inovadores e continua assustadoramente atual, sendo copiado e citado inevitavelmente o tempo todo. O diretor é Billy Wilder, um dos mestres do cinema norte americano. A narração do protagonista é precisa e nos mantêm preso a história, exemplos não faltam, “Tropa de Elite” utiliza-se de uma narração que se não nasceu aqui, teve seus fundamentos sacramentados por esta obra. Sem desconsiderar o final mais aterrorizador que o cinema já nos presenteou.
Mas o que não deixa esse filme envelhecer é o fato que ele é de uma coragem única, ele desafiou de peito aberto uma censura que pairava sobre o cinema. Bateu de peito e mostrou o lado sujo e que poucos conheciam da terra dos sonhos. Recebeu 11 nomeações ao Oscar, porém só levou 3 estatuetas. Uma história muito mal explicada, aparentemente, a razão é a crítica pesada que o filme proferiu contra Hollywood.
Quanto ao estilo, já tive uma das melhores conversas de botequim a respeito. Muitos consideram o maior filme noir de todos os tempos. Eu não acredito que seja um filme noir por inteiro. Em alguns aspectos fica bem claro as influências: o expressionismo alemão nas cores preto e branco e a femme-fatale a beira de insanidade são dois fatos, porém não me são suficientes para definir um noir. Está mais para um drama psicológico regado com um pouco de terror (o final me causa arrepios) e algum toque bem maduro de humor negro.
Sem contar as atuações perfeitas de William Holden como nosso protagonista, Gloria Swanson como a mais assustadora personagem já criada e Erich von Stroheim como o mordomo - este que influenciou fortemente a mim como ator.
No mais, é um verdadeiro clássico e um dos melhores filmes da história do cinema que nunca irá perder seu efeito sobre a indústria cinematográfica. Citando dois exemplos: Beleza Americana e Cidade dos Sonhos são herdeiros diretos deste clássico.
Nota: 10/10
Depeche Mode - Violator (1990)
Em uma palavra, estonteante. Mesmo que seja um disco que segue a mesma linha que os dois trabalhos anteriores do grupo, neste eles atingem finalmente o fino da obra, letras muito bem tratadas e arranjos perfeitos. Esse disco é daqueles que música após música existe algo melhor, é impossível manter uma preferida por muito tempo. Para se ter uma idéia os dois primeiros singles deste álbum foram “Personal Jesus” e “Enjoy The Silence”; a primeira é perplexamente simples e perversamente boa, algo como um blues sobre uma batida funk (americano, sic) enquanto que a segunda é a melhor e maior balada-romântica-dançante. Ainda tivemos singles como “Policy of Truth”, típica letra amor/ódio e um q de Motown, divina.
Como de costume não vou mais falar das músicas, não sou fã de análises faixa a faixa, porém são tantos destaques neste disco que é difícil não citar. A sonoridade é maravilhosa, uma das melhores produções em termos sonoros. Os arranjos são complexos, várias camadas, guitarras, teclados, vocais, barulhos, tudo vai tomando conta de forma perfeita, nada parece fora do contexto.
O Depeche Mode é uma das maiores bandas se não a maior banda em atividade e em plena produção de material inédito de qualidade. Fazem um dos melhores shows da atualidade e ainda tem muitos quilômetros pela frente.
Por curiosidade quem quiser deve correr atrás de algumas versões de músicas deste disco. Johnny Cash gravou Personal Jesus e Tori Amos gravou Enjoy The Silence, em ambos os casos são de tirar o fôlego.
As palavras não são necessárias.
sexta-feira, setembro 28, 2007
Estamira (2004)
Direção: Marcos Prado (Produtor de Ônibus 174 e Tropa de Elite)
Mesmo sendo um documentário de 2004, é eterno, Estamira está em todo lugar.
A primeira impressão que temos ao começar a assistir esse documentário é de estarmos diante um fotografia soberba; o cineasta captura alguns momentos de um cotidiano diferente, em tomadas mais do que bem feitas.
Primeira porrada é a loucura aparente de Estamira: ela começa a despejar alguns conceitos que fazem agente ficar de queixo caído, tudo é extremamente fora do comum e muitas vezes irracional, só podemos levar a crer que se trata de uma mulher fora de sanidade; talvez seja uma justificativa, o tempo que ela passa em meio a tanto lixo tenha levado-a a este estado. Porém o documentário vai se desenvolvendo e as palavras vão ecoando de forma impressionante com vários cenários. A rampa, um aterro de lixo no Rio de Janeiro, nos leva a profundas reflexões a respeito da falta de consciência que a humanidade tem a respeito do próprio lixo. Estuprando a Terra e consumindo todos os seus recursos como se não houvesse o amanhã.
Mesmo em um ambiente tão desumano e sem a menor condição aparente de vida vários gestos de compaixão e fraternidade são mostrados. E as palavras muitas vezes incoerentes de Estamira começam a fazer um assustador sentido, considerando todo o plano de fundo que vem sendo proposto. De fato ela é doente, algum problema mental. Suas alucinações variam entre coisas místicas como o fato de acreditar ser uma feiticeira até o ódio profundo que sente pelo catolicismo. Ela de fato jura possuir poderes superiores, e mesmo sentindo fortes dores culpa a um “controle remoto”.
Então mudamos um pouco o foco e começamos a conhecer a história pessoal de nossa protagonista, sua filha, seu filho (um fanático religioso), sua filha perdida, o abandono de seu marido, os estupros e o quanto ela sofreu, o quanto ela se frustrou com suas crenças. Sua loucura começa a ser coerente e a cada vez mais tocar-nos de forma profunda. Entendemos a mistura de pensamentos e memórias que existe na cabeça dela.
Apesar de tudo isso ainda vemos uma mulher feliz e satisfeita. Provavelmente é uma ilusão, mas sua vida é colorida, e o cineasta teve uma sacada genial ao usar o preto e branco e o colorido para diferenciar momentos pessoais de momentos mais amplos.
Então começamos a pensar: ela está em uma realidade tão depressiva e sem futuro (comparada a nossa), e tudo o que ela fala sobre a vida, o futuro, a política, a religião, suas crenças e perspectivas... pensamentos de uma mente doente, fazem muito sentido para nós. Chega a ser até revelador. Provavelmente o mundo é louco, e no início Estamira afirma: "A minha missão, além de ser a Estamira, é mostrar a verdade e capturar a mentira". Estamos todos vivendo em um caos e Estamira, que está vendo tudo de fora do sistema econômico, está alertando a todos.
Ou mais triste ainda, estamos todos tão perdidinhos em nossa patética vida vazia e padrão, que aceitamos acreditar em qualquer um que diga que pode nos salvar.
Nota: 10/10
O país dorme.
"- Que absurdo, essa robalheira no governo. Que coisa mais horrível."
Cinco minutos depois.
"- Meu filho passou no concurso público, bom que agora é só mamar nas tetas do governo e nessa eu descolo ainda um pé de meia - risada estridente - é a melhor coisa a se fazer nao?"
É duro acreditar em um país que não se revolta pela corrupção, apenas tem inveja de não estar no lugar do corrupto.
"- Quieto filinha, deixa mamãe assistir a novela, depois você me conta sobre essa passeata não sei o que aí."
terça-feira, setembro 25, 2007
Um vagabundo de classe.
O groove do Jazz de Coltrane embalava o sono de Kim depois de horas retorcendo metal morto para construir uma estrutura miníma para lhe proteger de uma eventual chuva. Aquele garoto, com cara de homem que caíra da árvore de muito esperar, mostrava as contradições claras em sua ideologia Kurtiniana, viver intensamente e morrer rápido, que os céus tenham piedade. Seu tênis nike já havia percorrido muitos quilômetros a mais do que qualquer outro irmãozinho teria feito, sua calça jeans desbotava e misturava o azul fraquejante com o escuro das noites dormidas no chão, usava uma regata velha rasgada no pescoço para respirar melhor e estampando no peito seu gosto refinado; “Band of Outsiders”, ainda usava o suspensório que havia roubado de um amigo seu, queria ser chique apesar da sujeira que impregnava o resto das vestimentas, mas seu grande trunfo era o chapéu de copa baixa que havia comprado por cinco contos de um mendigo – mesmo tendo duas ou três manchas, era perfeito, lembrava uma figura grotesca saída de algum conto obscuro de Tenneessee Williams – e assim se esparramava em um sofá velho, que achará na porta de uma casa e levará para seu cantinho nos trilhos da antiga estação de trem abandonada, a música vinha da antiga e moderna vitrola que funcionava com pilhas, era uma verdadeira luta achar pilhas pra ouvir uma canção inteira.
Acordou.
Era manhã e o sol queimava impiedosamente a batata de sua perna, o que lhe não lhe parecia de todo uma má idéia, a fome lhe atormentava a anos e um suflé de batas a parisiana seria um pedido dos Deuses. Bocejou algumas vezes, coçou os olhos, coçou o nariz e buscou em sua velha mochila – velha de guerra – sua desgastada escova de dentes, a seco mesmo realizou o ritual que não necessariamente limpava os dentes, mas sim limpava a mente da insanidade da solidão. Ele tinha mais medo da solidão do que da própria morte. Buscou em sua sacola de feira uma banana suculenta que lhe fora presenteada. Tinha um pouco de pimenta também, nada melhor, banana com pimenta no café da manhã, padam padam padam, cantava com entusiasmo enquanto dançava categoricamente com seu guarda-chuva quebrado e abocanhava mais um pedaço de seu desejum. Sabia ter classe, buscava a dança em “Cantando na Chuva” e a canção de sua musa francesa Piaf. Era uma música bonita, cantava quando feliz, ou resmungava quando triste. Padam, padam padam...
Caminhava rumo a mais um dia. Mas de forma alguma seria um dia qualquer. Todos os dias eram dias únicos, afinal era uma longa trilha até o anoitecer, que era o amanhecer para sua vida boêmica. O centro da cidade o chamava, iria se encontrar com a ruiva do parque, uma vagabunda de classe que vivia nos seus moldes, e também degustava dos prazeres do jazz com pimenta e da culinária francesa tragada dos restos da burguesia robótica. Os dois curtiam um romance curto e breve, sabiam que duraria três ou quatro dias, assim seria eterno na memória de cada um. O sorriso amarelo estampado no rosto de Kim não afastava as pessoas de pata que corriam em seus trilhos malditos do dia a dia, mesmo tendo a aparência de um insano vívido vagabundo, sua faceta sorridente não demonstrava qualquer sinal de maldade, coisa rara nas carancas monstruosas que desfilam em alegorias fantasmas nas grandes avenidas desta capital.
“ - Olá, seu Pepe, tem jornal de ontem?! O que aconteceu com aquele filha da puta no congresso? Então é verdade? O seu Pepe me arranja uma moeda, vou comprar uma rosa pra minha namorada. Vale se Pepe. Gosto quando as coisas vão bem, é sinal que os passos devem ser mais firmes..”
Sentou no banco da praça cruzou as pernas, e sacou do bolso da calça um pequeno espelho quebrado, no qual já tinha se cortado inúmeras vezes, mas agora já havia domado o danado. Verificou os dentes, todos ali, e penteou o cabelo, meio duro, não saiu do lugar, mas melhorou, guardou o espelho. A leitura.
Continua... ou não...
segunda-feira, setembro 24, 2007
La Môme - Uma Vida em Rosa (2007)
Direção - Olivier Dahan (Ghost River que é muito bonito.)
E o Oscar de melhor atriz vai para Marion Cotillard pelo filme La Môme. Marion quebra várias barreiras e faz uma protagonista perfeita para este filme que ousa, com maestria, contar a vida da cantora francesa Edith Piaf. Um filme que acabou por me pegar totalmente surpreso, não havia nem sequer ficado sabendo da produção dele nem nada, quando vi já estava assistindo essa maravilha.
Creio que o título no Brasil será Uma Vida em Rosa que seria a tradução para o título internacional La Vie en rose. Os grandes destaques seriam a história de vida desta cantora que influenciou gerações e a atuação única que Marion conseguiu realizar neste filme. Seus 140 minutos passam voando enquanto assistimos de forma mão linear, porém de muito bom gosto, a trajetória desta conturbada estrela francesa. A direção é firme e mesmo fazendo diversos saltos cronológicos mantém o clima perfeito para cada cena sem perder a força sentimental e sem cair em momentos enfadonhos.
A trilha dispensa comentários obviamente e a fotografia tem ótimos momentos. Uma grata surpresa para quem gosta de filmes com biografias musicais tais como Ray ou Johnny & June. Deve pintar em breve nos cinemas nacionais. Acredito que venha a ser uma das atrações da mostra de cinema de São Paulo.
Padam! Padam! Padam!
Aborto Mental II
Algumas pernas longas em demasiado tem sentimento em falta.
Assim como a modelo magrela se preocupa no desfilar
Nem a cachaça salva algumas situações
Pedras, caco de vidro
Cobre a tua cabeça e sai
Afinal é perigosa a tentação da bondade
Turbilhão e furacão
Corpo jogado feito saco de rabanetes na parede
Sem valor e sem conteúdo
Desespero pra ser o ('um)
Amargura para ser como o ('um) outro.
Palhaço também tem alma
Alma?
E eu?
Clara e a depressão da casca
Viva ao hipocrismo social democrata
A espera do que?
Que merda de lugar é esse?
Abaixo a burguesia! Se não sou como eles, que morram!
Que morram por ter corrido atrás enquanto eu cheirava cola.
Que morra a vaca que me alimenta,
mas que viva o moleque que me da a erva
Erva que me salva da viril tentação do pico
Mansão, menção ao rabo de largatixa
Prostituta no café da manhã
Dublê de mim mesmo
(In)Terra Nostra
Ou império decadente?
Grito de palavras perdidas
por ideias antigos
por amores frouxos
por dinheiro patético
cheiro de carne podre
de sorriso amarelo
gosto de sangue com pimenta
Sim, senhor!
O relatório as 2h.
O emprego.
Antes vivo do que....
vivo?
domingo, setembro 23, 2007
À Prova de Morte - Death Proof (2007)
Direção – Quentin Tarantino (Kill Bill, Jackie Brown, Pulp Fiction e Cães de Alugue)
É complicado falar do Tarantino levando em consideração que ele é um cineasta quase que único na indústria cinematográfica. Desde o início de sua carreira primou em realizar obras com referências obscuras, dialógos típicos e visual muitas vezes de filmes de baixo orçamento, o que não deixa de ser mais uma de suas explicitas referências. Desde o maravilhoso 'Cães de Aluguel' passando pelo fenômeno cult 'Pulp Fiction' e chegando a obras mais recentes como 'Kill Bill Quentin sempre soube dosar muito bem o que queria com seus filmes. Em 'À Prova de Morte não poderia ser diferente e toda a intenção de recriar o clima de um terror B aliado a clichês de personagens que ao mesmo tempo cheiram coisa nova estão ali.
Porém antes de falar do filme, deve se comentar que na verdade ele é um segmento do filme Grindhouse, que foi feito em parceria ao seu amigo Rodriguez (um diretor que ainda não me fisgou). A idéia do projeto era reviver as antigas sessões de filmes B, aonde se passavam dois filmes seguidos, porém depois do projeto o filme de Tarantino foi reeditado e lançado em sua versão completa e é desta que estou escrevendo.
A história é simples, um dublê pra lá de estranho, com uma tremenda cicatriz no rosto e um carro um tanto quanto bizarro chega a uma pequena cidade do Texas para matar um grupo de garotas sem qualquer motivo aparente, ele usaria o próprio carro para mata-las. Simples como isso, e cativante como poucos. O filme prende sua atenção do começo ao fim, seja com os dialógos absurdos ou as milhares de referências que saltam aos olhos dos mais atentos, sem desconsiderar a trilha sonora pra lá de maravilhosa, o que já é característica nos trabalhos deste diretor.
Não vou contar mais da história pois ela se desenrola de forma interessante e na segunda metade do filme temos uma nova injeção de animo. Pontuando alguns detalhes, esse é o primeiro filme que Tarantino dirige a fotografia, e o faz com maestria, os efeitos de película antiga, os cortes estranhos, as cores da segunda parte, as tomadas de pulo com carro, tudo foi feito quase como uma pesquisa saudosista a grandes filmes do passado. O elenco está muito bem, Kurt Russell nunca esteve tão genial depois de Fuga de Nova Iorque. Forte concorrente a melhores do ano no quesito diversão.
A fantástica cena do lap dance, creio que não prejudica muito na história assistir, porém aviso que é algo do meio do filme:
sexta-feira, setembro 21, 2007
Tropa de Elite (2007)
Diretor - José Padilha (do interessante Ônibus 174 e roteirista e produtor de Estamira)
O maior sucesso da pirataria nacional dos últimos anos estreia hoje nos cinemas. Tropa de Elite, filme nacional sobre o esquadrão especial da polícia carioca, já é conhecido do público a bastante tempo quando vazou uma cópia em perfeito estado e começou a circular pelo comércio alternativo brasileiro. Como um viciado em cinema não poderia deixar de fazer já conferi e trago aqui uma pequena crítica.
O cinema nacional em geral é algo que assusta tamanho a falta de regularidade em títulos de primeira linha. Não diferente do resto do mundo, creio que em qualquer lugar existam filmes bons e ruins, porém no nosso caso o que mais me assusta são erros de base, é uma falta de conceito geral que assombra grande parte dos cineastas. Padilha não diferente do que muitos, cometeu uma série de erros triviais e nos trás um filme apenas razoável. Admito que não assisti o Ônibus 174, porém já estou providenciando, agora o documentário Estamira que teve colaboração direta foi o que mais me empolgou a assistir este filme. Se em Estamira estava um dos melhores documentários que eu já vi, parece que nada foi aprendido e o cineasta deu alguns passos para trás.
O grande problema é a falta de um roteiro de verdade, falta dos atores fazerem um trabalho de criar todo aquele novo universo a ser filmado. Com exceção, talvez, do Wagner Moura que demonstra um trabalho mais detalhado, com algumas idéias interessantes e um claro desenvolvimento, o resto é um monte de caricaturas jogadas a esmo em uma trama bastante simples, que busca uma certa inovação na maneira de ser contada, mas apenas consegue cair em maiores clichês.
Não que tudo esteja perdido, admito que me interessei em saber a história do início ao fim e me diverti por diversos momentos, porém a falta de um toque de arte transforma tudo em quase algo documental ou assim podemos chamar um quadro especial do fantástico. Depois de belíssimas produções como Cão sem Dono, fica difícil engolir algo assim. Cidade de Deus já ostenta o título de Cult afinal lançou diversas possibilidades que deviam ser exploradas de forma mais delicada, e não como uma referência vazia. Aos que procuram assistir algo nacional, assistam 'Santiago' (leiam a postagem do Aiton) ou aguardem o filme sobre o livro da Clarah Averbuck, 'Nome Próprio'.
quinta-feira, setembro 20, 2007
Blur - Blur (1997)
Cavalos trotando pra longe se transformam em uma safada guitarra distorcida e assim começa esse disco que esbanja Britpop da melhor qualidade. Que o Blur é uma banda das mais importantes da década de noventa e deu um novo animo ao cenário britânico que vinha da ressaca das intermináveis festas da Hacienda, não há dúvidas, que atire a primeira pedra quem nunca gritou Uhuuuuu (pífia tentativa de remeter a Song 2). Beatles, Rolling Stones, Nick Drake, Led Zeppelin, The Who, The Clash, Sex Pistols, Joy Division, Depeche Mode, The Police, The Smiths, The Stone Roses, Oasis, PJ Harvey e Radiohead são apenas uma parcela, mais conhecida, das bandas que saíram da terra da Rainha. O que existe de especial então neste quarteto? Primeiramente a incansável briga que travaram disco a após disco com o Oasis. Algo que remetia quase que diretamente ao Beatles x Rolling Stones, talvez o posto de pedras rolantes seria dos irmãos Gallagher e o quarteto de liverpool representado pelo Blur, brincadeiras a parte, uma repetição da história mostrava novamente duas bandas dividindo opiniões pelo mundo. Em segundo lugar essas duas bandas foram responsáveis por grande parte dos grandes hits britânicos da década, talvez levando ligeira vangatem o Oasis no quesito emplacar músicas na parada.
Agora a decisão pelo disco auto intitulado foi um tanto quanto difícil, competir com trabalhos como Parklife e The Great Escape não é tarefa fácil. Talvez o que tenha pesado a favor deste trabalho foi o fator que ajuda na escolha dos melhores vinhos também, o envelhecimento, foi um trabalho que ganhou novas texturas e um novo sentido pra mim e hoje é o que mais admiro deles, seguido do fabuloso 13.
Como de costume evito fazer uma crítica faixa a faixa ou explicar como o som da guitarra com efeito xyz no minuto x da música me faz achar a obra genial. Vou pelo que o coração diz: é um disco que gosto de ouvir do início ao fim e como todos os outros até agora, é uma recomendação de algo que me agrada muito. Espero que gostem.
Destaques: Beetlebum, You Are So Great, Song 2, Look Inside America, On Your Own. e Strange News From Another Star.
Beetlebum ao vivo na época do álbum 13:
segunda-feira, setembro 17, 2007
O Círculo de Giz Caucasiano - Bertolt Brecht (1945) - Manuel Bandeira (1963) - Cia do Latão (2006)
Este título imenso nada mais é do que a justificativa desta maravilhosa peça de teatro que está em cartaz na cidade de São Paulo. Um dos maiores dramaturgos modernos, traduzido por um dos maiores poetas brasileiros tendo sua peça montada por um dos melhores grupos de teatro quando falamos em termos de pesquisa, história e atores. Porém vamos com calma.
Brecht é um dramaturgo alemão famoso por suas peças com fortes críticas políticas e humanas, grandes exemplos não faltam: Um Homem É Homem, A Ascenção e Queda da Cidade de Mahagonny, A Alma Boa de Sun-tzu e muitas outras. Em o círculo de giz caucasiano o mote é que durante a guerra na Georgia alguns camponeses fugindo deixaram para traz um fértil vale, que quando desocupado foi logo invadido e defendido aos dentes por outro grupo de camponeses, que cuidaram do local e inclusive trataram de melhorar criando um sistema de irrigação. A questão é depois da guerra quem é o legítimo dono da terra? Os antigos ou os novos? Sentados para discutir isso, começa uma peça dentro da peça, onde se ilustra essa disputa. Este novo épico.
Manuel Bandeira fez uma tradução impagável e dele nem me cabe falar, é um dos gênios pouco reconhecido em nosso país.
A Cia do Latão é um um grupo de teatro que realiza uma pesquisa aprofundada no “jeito Brecht” de fazer teatro. Já montaram no passado “Santa Joana dos Matadouros” e “Ensaio sobre o Latão” e agora nos presenteiam com essa montagem emocionante. Sim emocionante é a palavra correta, a pela que levou esse aqui as lagrimas duas vezes, está com um elenco de ponta, todos com sua importância e talento e pró do pai palco. Como é emocionante ao final ver os atores agradecendo ao palco. Vale o comentário que a atriz Helena Albergaria simplesmente me deixou até agora sem palavras, ela foi de longe o que de mais tocante eu já vi em um palco.
Quem gosta de viver sentindo que o coração pulsa no peito por mais sentido do que apenas o levar o sangue por ai. Assista.
Aonde?
TUSP - TEATRO DA USP
Rua Maria Antônia, 294
Horário: Sextas e sábados, às 21h e domingos, às 20h
2ª TEMPORADA: 14 DE SETEMBRO A 28 DE OUTUBRO
Local: TUSP -Teatro da Universidade de São Paulo
Endereço: Rua Maria Antonia, 294
Preço: R$ 20,00 (inteira) R$10,00
Duração: 3 h 15 minutos (195 minutos)
Lotação: 136 lugares
14 anos 

