Direção – Jean-Pierre Jeunet (A Very Long Engagement)
Existem alguns filmes que retratam de forma tão harmoniosa a sociedade e tantas vezes com uma delicadeza ímpar que acabam por si sós criando uma nova e divertida forma de encarar essa viagem. Amélie não é obviamente o primeiro nem será o último filme a mostrar pessoas deslocadas, alias esse é um tema que se repete ano após ano no cinema. Porém alguns tocam em um pontinho chave das pessoas e se tornam clássicos imediatos. Com essa pequena pérola de Jean-Pierre não é diferente, aclamado no mundo todo, com diversos prêmios, foi um dos maiores sucessos do cinema francês atual.
Amélie, nosso Homero moderno, é uma simples e humilde garçonete ela teve uma infância bastante distinta e pode se citar o pai que era médico e só se aproximava para realizar exames médicos e seu peixinho que sempre tentava suicídio. A história aqui começa quando Amélie se muda para um novo apartamento e acha uma caixinha com alguns objetos sortidos. Passa então a realizar uma busca pessoal pelo suposto dono desta caixa. Uma busca quase que impossível se tratarmos do caso que estamos em Paris.
A forma como tudo é levado e a humanidade que Amélie carrega são os pontos altos, é impossível não se apaixonar pela meiga Audrey Tautou (Código da Vinci e o Albergue Espanhol) ou se encantar com a bela fotografia e narrativa do filme. A atriz dá um show a parte, e traz uma personagem encantadora e única. Chegando até a virar adjetivo, algumas garotas já me falaram querer ficar mais ameliézada.. Eu agradeceria, se a todos tivêssemos metade da sensibilidade carregada nesta personagem, estaríamos em um lugar muito melhor.
É um dos meus filmes preferidos da nossa atual década e compete com grandes do cinema de igual pra igual. Assistam caso não tenham tido a oportunidade.
Outro destaque é a trilha sonora, Yann Tiersen é um músico francês que realiza um trabalho muito interessante, ele além de compor belíssimas trilhas (Adeus Lenin!) ele realiza apresentações ao vivo com uma intensidade muito boa. Confiram a versão ao vivo do tema de Amélie:
segunda-feira, setembro 17, 2007
O Fabuloso Destino de Amélie Poulain - Le fabuleux destin d'Amélie Poulain (2001)
quinta-feira, setembro 13, 2007
The Arcade Fire - Funeral (2004)
Como tratar temas tais como a morte, a solidão e a perda? Temas que conspiram normalmente para um trabalho denso, pesado, com um clima cinza e guardado para manhãs chuvosas de sábado. Isso seria o obvio claro, neste primeiro trabalho desta trupe canadense eles realizam praticamente um catarse e expurgam todos os demônios com um disco cheio de energia, belíssimas melódias e muita criatividade.
Funeral é um disco atemporal, poderia ter sido lançado nos anos sessenta e seriam vanguardistas, lançado hoje é um disco ainda sim vanguardistas somado ao saudosismo que vemos em claras referencias a grandes bandas dos anos 60, 70 e 80. Com grande ênfase na década perdida. “Someone told me not to cry”. Um disco antológico que já ficou para a história.
Eles já despertaram figurões como David Bowie e Bono Vox, fizeram um show delirante no último Tim Festival, revolucionaram a forma de mostrar seu trabalho, soltando vídeos aonde a banda tocava dentro de um elevador ou faziam confusão misturando as músicas do novo trabalho e soltando algumas na internet. Lançaram um segundo trabalho bastante autoral e com muita personalidade mostrando terem bastante noção de onde querem chegar. Não preciso me delongar mais para dizer que considero essa uma das grandes bandas da atualidade.
Destaques: Neightboohood #1(Tunnels), Neightboohood #2 (Laika), a belíssima Crow Of Love e Wake Up.
Para quem quiser ler uma postagem interessante sobre o outro disco da banda. Cá está.
Momento fã:
Uma apresentação com a faixa Neon Bible do mais novo álbum seguida da poderosa Wake Up em uma versão linda, 15 minutos que valem a pena:
quarta-feira, setembro 12, 2007
Ladri di biciclette - Ladrão de Bicicletas (1948)
Direção: Vittorio De Sica (Shoe-Shine e Umberto D)
O cinema italiano sempre foi um de meus preferidos. Tudo começou com Fellini (leiam sobre o filme “E A La Nave Va” e depois veio uma fila de grandes cineastas que fui descobrindo com o tempo. Demorei bastante tempo para descobrir esse clássico do neorealismo.
A trama do filme é singela e tocante: Antonio Ricci é um desempregado que consegue uma vaga para trabalhar como colador de cartazes, bastava ter uma bicicleta, aí que Ricci parte junto ao seu filho Bruno em uma busca amarga e angustiante pelo seu meio de trabalho. É mostrado como a situação pós guerra deixou a Itália em um estado de caos, sem geração de empregos, com uma classe proletária sofrendo anos a fio sem geração de renda. Tudo é mostrado com muita sensibilidade.
A situação de desespero por um trabalho fica claro quando um funcionário do governo chega para anunciar algumas vagas disponíveis. A população não tinha preparo e as vagas necessitavam um mínimo de conhecimento, a situação fica tão sufocante que a vaga de colador de cartazes era algo nobre o que acaba levando Ricci a esse desespero em conseguir uma Bicicleta. Contar mais seria estragar. O final é estarrecedor.
terça-feira, setembro 11, 2007
The Beatles - Revolver (1966)
Foram mais de cem postagens para tomar coragem e escolher algum disco dos Beatles para entrar na minha discografia básica, a qual levaria para uma ilha deserta e todos essas alegorias em formas de clichês. Por que o Revolver? A resposta estava na minha cara durante o tempo todo, porque é meu disco preferido a uns quatro anos já, algo que sempre esteve em mutação, fez-se estável com esse trabalho definitivo. Rock, folk, jazz, música clássica, indiana... técnicas que a mais de quarenta anos ainda são vanguardistas e ouso dizer únicas, poucos artistas conseguem unir uma produção de tamanho nível a composições sublimes.
Taxman é uma composição do George (meu Beatle preferido) e abre o disco, um detalhe que poucos sabem é que quem sola na música é o Paul, tocando guitarra mesmo, e que solo! Eleanor Rigby dispensa apresentações, talvez seja a faixa mais conhecida deste álbum. Não vou comentar música a música pois comentaria absolutamente todas.
Da mesma maneira que o Kind Of Blue do Miles Davis redefiniu o Jazz, este trabalha do Fab Four moldou para sempre o que viria a ser o Pop Rock. Todas as referências e grandes inovações vieram daqui. Entrando um pouco na Beatlemania vale ressaltar que esse ainda era o auge do grupo como um todo, depois começaria a vir alguns desentendimentos e ainda viriam grandes discos claro, mas aqui ainda existia uma química muito forte entre todos.
Caso não esteja muito bem apresentado ao quarteto de Liverpool, este é um ótimo começo, escute do início ao fim. Perfeição rara.
Destaques: tudo.
For No One (Minha música preferida, destaque para o Paul explicando que teria um solo de trompa no meio)
segunda-feira, setembro 10, 2007
Lavoura Arcaica - Raduan Nassar (1975)
Uma das maiores dificuldades que enfrento é responder a pergunta - “Mas é sobre o que?” - quando estou falando a respeito de um livro. É difícil falar sobre o que um livro é, pois é muito mais do que um tema, existe a forma que ele é escrito, a maneira que as palavras se movem pra te pegar. Lavoura Arcaica é um dos meus livros preferidos, sobre o que é? Respondendo de maneira curta e grossa: Sobre as vontades de um jovem deixar a vida que leva na fazenda da família. Creio que o livro é sim a respeito deste tema, e que por si só até não me diria muitas coisas. Agora quando entra elementos como a linguagem, o contexto histórico ou mesmo a abordagem sobre a família que o livro brilha por si só.
A linguagem é tão rica que eu costumo comparar com Grandes Sertões: Veredas do Guimarães Rosa (um dos meus escritores preferidos). Tudo parece um terrível e confuso fluxo de consciência a la James Joyce. Narrado em primeira pessoa de forma bastante elegante, é um dos grandes referências literários que levo comigo. O contexto é algo mágico, ele poderia ter acontecido a trinta e cinco anos atrás, ou a setenta anos atrás. Pois retrata um estado que povo rural foi levado, é um retrato detalhado do que passou pela alma de muitos Brasileiros, e sim pessoas do mundo todo, durante o êxodo rural. Gosto também de comparar o livro com a peça do Nelson Rodrigues, Álbum de Família, pois trás uma abordagem controversa de uma instituição pra lá de torturada e destroçada nos dias de hoje.
Em 2001 houve uma adaptação para o cinema, que eu ainda não tive a oportunidade de assistir, li em alguns textos a respeito e me despertou sempre bastante interesse. No “Verbo Transitivo_beta” tem um post (link aqui) bastante interessante. Vale dar uma olhada, é um ótimo blog.
quinta-feira, setembro 06, 2007
O Espelho
Deslocado. Locomover-se é um dos primeiros instintos desenvolvidos pelo homem, e é também um dos que fazemos sem o menor raciocino evidente. Nicolas, sempre achou ter personalidade e andar com objetividade, até se sentir tão deslocado que pouco ou nada fazia sentido. Nada o fazia querer viver mais do que o sentido de se achar no local correto e na hora certa. O sentido máximo estava em ser preciso. Ou era até perceber que nunca esteve tão perdido como nesta noite sem conhaque. Seus amigos riam e bebiam como se fossem os deuses do mundo, em breve se levantariam para vangloriar-se de sua potência, se auto afirmando deuses modernos. Os excessos eram encarados como prova de força, como ritos de passagens a serem superados a cada minuto. Não existia uma dose a menos ou uma noite a menos. Era tudo e nada sempre ao mesmo tempo, silêncio em muito barulho para mostrar o quão seguros de si podiam ser. Nicolas sentia nojo disso, mesmo sorrindo e brindando ao seu futuro brilhante como o advogado mais jovem a se formar no país. Ignorava sua família, que tanto lhe disse que o dinheiro não era tudo, não passavam de um bando de vagabundos, fracassados que não queria encarar a vida de frente e vencer. Sim, ele nascerá pra vencer e prosperar, tinha o foco claro, usaria as vertebras de seu irmão como degraus se fosse preciso. Deboche, raiva, remorso, saudade, felicidade, cinismo e intensidade.
Infelicidade.
Veracidade de todos os que o cercavam agora em mostrar o real carinho, aquele que é ganho com esforço de quem busca como um espartano a glória usando a agressividade e voracidade que o dinheiro faz na mão humana; exatamente como o pedaço de carne faz na boca do cão faminto. Desejo reprimido. Tecido de uma raiva crescente por suas origens. Saudades do Pitu, seu único amigo, um cão vira lata que tinha classe de rei.
Um longo corredor, o chão era de madeira, velha, provavelmente devorada por cupins, o tapete velho e desgastado era incessavelmente limpado para parecer novo, sobre o disfarce de incensos o cheiro de falsidade impregnado em cada ornamento das paredes, lindos detalhes em mármore rosado e diversos quadros de Rembrandt. Uma mobilia imponente expunha pergaminhos de John Fante e Fellini, lembranças de quem enxergou além e nunca foi compreendido, expostos como trofeus. As luminárias de cinco em cinco metros iluminavam constantemente o ambiente e davam a racionalidade necessária para admirar cada falso brilhante que esbanjava luxo e tendencias suicidas.
De perto tudo se transformava, o quadro que maliciosamente parecia se entortar, o cristal que se aclamava por atenção ameaçando-se tacar das alturas, a tapeçaria que corroída demostrava a decadência, ou mesmo a porta ao final do corredor que imponente virava apenas uma... porta.
Nicolas caminhava tudo isso com objetividade logo saíra e logo teria o encontro com seus falsos apoiadores morais. A glória se aproximava, o caminho era longo mas sempre chegava-se a algum lugar. A maçaneta fria, o sentimento de rendição, lembrou-se: sua família passava fome em algum lugar, porém não era culpa dele, ele fez de tudo para salvar-se... eles que o seguraram... tinha abandonado também a doce Margarida que tinha reparado sua inocência em um momento de humanidade contida e reprimida. Precisava se concentrar, “- pro inferno esses pesos que me seguram, vocês não são nada para mim.”
Girou a maçaneta, devagar, queria saborear a vitória, sentiu cada mola estralando e se soltando para entregar a vitória aos que lutam e Nicolas era um lutador. A porta se abria devagar e ele sentia até o golpe seco do ar fresco, primeiro sinal de liberdade. Seus olhos não podiam acreditar, a visão era...
A porta se abrirá, quando menos esperava com uma convicção e força únicos. Nicolas se sentia uma criança, um garoto, inocente e cheio de dúvidas, buscou o sentido naquilo. Achava que um dia cresceria e se sentiria completo. O terror do segredo guardado pela porta o apavorava, nunca tinha estado cara a cara com isto.
O espelho.
quarta-feira, setembro 05, 2007
Chico Buarque e Gilberto Gil - Cálice Censurado.
Pior do que viver numa ditadura é viver na ignorância.
terça-feira, setembro 04, 2007
Máquina de Escrever Quebrada.
A garrafa de vodca vazia.
O som nostálgico da bossa nova torta do Nouvelle Vague.
Algo tão vago como o olhar das pessoas em um trem rumo a periferia as seis da tarde.
Desespero sempre tem seu papel fundamental no coração dilacerado de um jovem.
Mesmo quando o coração já está cansado demais até para se quebrar.
Quando os sentimentos ficam tão expostos que até o gosto da pra sentir na boca.
Ian disse, o amor vai nos quebrar novamente.
As vezes parece como um rio, agente pode conhecer, pode achar que sempre vai ser isso, mas quando colocamos o pé, agente percebe que o rio nunca é o mesmo.
Não existe um ciclo.
Da mesma forma que o ciclo não tem começo ou fim, o rio não tem ciclo.
E o Amor também não tem.
Nem que seja todos os dias de sua vida, cada amor é um único e você nunca irá vive-lo novamente.
Talvez seja isso que nos leve aos porões boêmicos dessa capital.
Em busca do ar viciado de vida falsa.
A batida afeta o cérebro e a alma.
O pico é a busca pelo novo.
É querer tudo e nada.
É do nada esperar tudo.
E do tudo fazer nada.
Nadar em tudo que é água
Tudo que é ar fazer água.
Fatalidades.
Como uma Charlotte em catarse ou um Drew em euforia.
Viciado na poeira sagrada que resta no final da noite.
Satisfeito com a insignificância que representamos ao todo.
Conformados com a situação do mundo, e nada empolgados em mudar.
A garrafa de vodca continua vazia.
O som se apaga.
A mente voa.
O coração afunda.
Uma segunda feira nunca foi tão azul.
Em pensar que falávamos de sonhos.
Aonde estamos?
Um sorriso de canto denuncia que a dança salva?
Você dançaria comigo?
Uma História Sem Fim.
Com o começo fatal do nascimento.
Nascimento de uma morte anunciada.
Seria este o meio?
Como você se sente?
Eu estou ótimo
Nineteen Eighty-Four - Mil Novecentos e Oitenta e Quatro (1984)
Direção - Michael Radford (O Mercados de Veneza e um filme chamado Dancing At The Blue Iguana que eu fiquei muito curioso de ver, alguem tem?)
Livro – George Orwell
Um mundo cinza, oprimido, sujo e destruído. Governado pela mão de ferro do Grande Irmão essa sociedade quase robotizada vive uma rotina uniforme, que começa desde os padrões comunistas de distribuição de bens até alguns flertes com a incansável vigia exercida pela policia alemã. Claro que o paralelo traçado com os fatos reais podem causar olhares tortos afinal é uma visão unilateral e extremista. George Orwell escreveu o livro em 1949, em um mundo que ainda sofria com resquícios do nazismo e tremia perante a onipotente Guerra Fria. Essa sociedade decadente que possui ministérios que controlam a verdade, sobre a premissa que quem controla e o passado, controla o futuro e muito além quem controla o presente, controla o passado. Ligas anti-sexo e uma construção de uma nova língua que iria erradicar o livre pensamento, retirando as palavras perigosas do dicionário. Ao mesmo tempo mostra uma classe proletariada que não tem força para brigar e de certa forma aceita a sua condição abaixando a cabeça, mas que ao mesmo tempo mantem o elo com os instintos mais primitivos e em muitos momentos parece mais feliz que a dita classe superior. As injustiças sociais também são evidentes, o dito partido interno, que só o alto escalão faz parte tem acesso aos produtos mais finos e especiarias que nem mesmo a classe média juntando dinheiro uma vida inteira teria alcance. O incrível é a capacidade que esse livro tem de se manter extremamente atual e a maneira como podem ser traçados os mais diversos paralelos sobre os mais diversos tópicos.
A adaptação para as telas é soberba e consegue capturar com extrema eficiência o clima do livro, traz imagens interessantes, inclusive apresentar soluções inteligentes para não manter o espectador perdido caso não tenha lido o livro. A atuação do John Hurt é precisa e não escorrega em nenhum momento. Mesmo os figurantes apresentam uma dedicação e imersão notáveis. Um filme que é basicamente levado pelo clima e por ideologias que levariam qualquer grupo de amigos a discussões infindáveis.
Um retrato frio e calculista que previu de muitas maneiras o rumo que poderíamos tomar. Se alguns acreditam na visão exagerada e fantasiosa de Orwell, outros dizem que ele foi até generoso e que a sociedade em muito já passou o nível desesperador aqui mostrado. Tanto o livro como o filme são importantes para qualquer pessoa que gosta de filosofar sobre possibilidades menos obvias.
segunda-feira, setembro 03, 2007
A Garota Sem Nome.
"Audrey Hepburn, como a atriz." disse a prostituta, pronunciando com gosto a última palavra, para um apanhado de músculos que ainda terminava de se vestir depois de quinze intensos minutos de prazer comprado. Ele deve ter reclamado porém Amanda não ligava muito, no fundo era muito esperta e adorava parodiar com os clientes: analisava o tipo do cara e buscava o nome que menos fizesse sentido. Outro momento especialmente saboroso para ela era a hora de receber o dinheiro, em geral adorava o ar de superioridade que sentia ao ver que o homem se humilhou e chegou tão baixo, quase rastejando por alguns instantes de prazer. Mesmo sabendo que não era uma mulher como as das capas de revistas de cosméticos, na real, fazia questão de não mostrar seu mais belo lado. Era quase como um conto de fadas, sempre desejou acordar, achar o príncipe encantado e aí sim levantar o véu da prostituta e se revelar a bela princesa trancafiada na torre. Sua pela negra era muito bonita isso ninguém negava, porém ainda arranjaria tempo, ela queria um sorriso perfeito ou mesmo um rosto de boneca de porcelana, coisas que nem de perto chegava. Se tivesse tempo de se cuidar melhor também teria um corpo mais em forma, mais isso ela faria algum dia para o príncipe.
“Vamos lá, mais uns três, e por hoje chega.” disse a si mesma enquanto se limpava no banheiro, apesar de fazer tudo que a profissão pedia, sempre se sentia imunda após o ato e com isto uma necessidade imensa de se limpar, por vezes na frente do cliente mesmo.
Desceu para o salão principal da casa, as luzes vermelhas piscando, a música alta e que não fazia mais o menor sentido, os rostos nulos e sem expressão, tudo a incomodava. O sorriso plástico cresceu no rosto e se mostrou radiante de alegria, tanto mostrava a felicidade que era mais um ato de desespero para esconder a tristeza profunda e encravada em sua pele. Como sempre se deixou guiar pelo automático escolheu o primeiro rosto nulo que parecia inocente e que não fosse pedir demais e foi até ele sentando-se no colo, como a mais ordinária das Lolitas, algo que nem Anita conseguiria realizar. Sentava e procurava tratar de excitar logo seu cliente, afinal quanto mais ativa a cabeça de baixo, menos sangue na superior e conseqüentemente o trabalho se tornava muito mais fácil. O hálito de pinga era tão forte que ela precisou se imaginar num campo de flores no interior em Pouso Alegre para resistir. Apesar das marcas claras de sofrimento e desgaste o homem era bonito, ou melhor, tinha seu charme: moreno forte, tinha os traços retos no rosto mostrando ao mesmo tempo uma beleza quase primitiva misturada com um olhar perdido e desolado, típico das grandes metrópoles. Ia ser como tirar doce de uma criança.
O homem se chamava Zé, e devido ao aspecto rústico dele e a pouca demonstração de intelectualidade do rapaz, ela escolheu, se chamaria “Elizeth Cardoso, como a Cantora”. Para sua surpresa o Zé abriu um sorriso malandro e começou a comentar o ótimo gosto dos pais dela. Pela primeira vez ela errara, os comentários do Zé já não faziam sentido, ela só se martelava a respeito da falta de sensibilidade que tinha em julgar o rapaz. Seguindo a risca todo o procedimento de sua cartilha trabalhista o levou para o quarto.
Quando entrava no quarto era o momento em que ela se desligava, era mais fácil. Seguia um passo a passou cuidadosamente elaborado por sua mentora. Lembrava-se como se fosse ontem o dia que, como uma menininha, entrara nesta casa. É fácil: “Eles não sabem o que fazer perante a mulheres com atitude.”. Primeiro passo: antes que ele possa querer ou pensar em algo, arranque as calças dele e caia de boca. Isso o deixará sem reação e bastante excitado, o que facilita e encurta o tempo de serviço que virá em seguida. Segundo passo: vá o levando pra cama e antes que ele pense suba nele e cavalgue como nunca, desta forma ele não vai aguentar muito e assim o trabalho acaba mais cedo. “Assim fácil fácil, não tem erro.” eram as palavras da Josiela Camargo, aquela velha puta safada que havia ensinado quase todos os atalhos da profissão.
Levantou-se e como o Zé permanecia estático depois daquela relação rápida e no mínimo intensa para um cara que não via um par de seios a muito tempo, a agora Elizeth resolveu ir se limpar, nem ligou de fechar a porta. Cantarolava uma velha canção do Adoniram, sobre o despejo na maloca. Pois o principal era isso, durante o primeiro minuto que botou os olhos em Zé, até o último segundo, ela era Elizeth e não mais ela mesma, aquilo era seu escudo, sua espada era seu sexo. Armada disto enfrentava a vida amarga e sonhava com o dia que largaria isto e simplesmente seria a princesa Amanda, amada por um príncipe e entregue a um romance Shakespeareano. O Zé ainda comentou alguma coisa do samba, mas não lhe fazia mais sentido, recebeu seu dinheiro, sentiu até um pesar diferente, como o pesar do ultimo aperto de mão, mas não ligou. Deixou a porta aberta pra a colega que vinha subindo com um velho barrigudo que provavelmente deixaria até a chave do carro e foi para o salão, desligando seus sentidos e seu coração para rumar em direção a um gringo e com o sorriso estampado no rosto e a ponta da lingua afiada disse: “Olá, sou a Mel Lisboa, como a atriz.”
sexta-feira, agosto 31, 2007
Neil Young - Old Man
Enquanto a música me causar arrepios como isso aqui e o sangue correr em minhas veias. Estarei vivo.
O Cachaceiro Zé.
O gosto do asfalto era salgado e ao mesmo tempo confortante. Com enorme prazer o Zé aceitava sua nova posição perante o mundo, na horizontal com o sol castigando suas costas. Seus poros exalavam álcool e sua percepção já a muito tempo tinha passado a ser no mínimo questionável, e o único que soube receber de braços abertos este saco de carne, que era jogado de lá pra cá sem o menor carinho o qual um bicho humano merece, foi o amargo e receptivo asfalto da Rua Augusta. José Carlos de Deus Filho não lembrava de muita coisa, apenas flashes. Algo assim:
Oito da noite, já tinha deixado a construção pra trás faz tempo, tinha sido um dia diferente. Um de seus colegas havia tropeçado e se acabado no meio da Rua Bela Cintra atrapalhando o já caótico transito da Paulicéia Desvairada. Aquilo havia lhe chocado um pouco, foi estranho ver alguém vivo e cinco minutos depois um monte de carne deforme servindo de estopim para 115km de congestionamento. Dorival disse: “Deixa ser, como será sempre, não cabe agente a brincar com os peões divinos, mais me sobra é tomar um pileque depois do expediente, vamos?” e nessa o Zé embarcou na longa viagem que faria entre o sol poente e o sol nascente. Pegaram o 775C e desceram ali no começo da Rua de Neon próximos do antigo prédio do Estadão. A fumaça tomava conta do horizonte e as luzes amareladas do centro anunciavam uma sexta nostálgica para aquele rapaz que costumava todos os dias rumar até Itaquera para dormir no seu quarto sozinho esperando pela rotina do amanhecer o apanhar novamente. Pararam logo ali em um boteco próximo da praça dos Teatros, como costumavam chamar. Ele lembra que foi a cachaça mais sozinha que já escorregou goela abaixo.
Dorival já alto e se despediu correndo para pegar o último ônibus quando já eram quase meia noite. O dono do bar, um velho barrigudo que parecia não ter se quer um pingo de alegria em sua vida tratou logo de colocar o Zé pra fora. De tanto falarem pro Zé que a solidão devora a alma, ele engoliu seco e se perdeu no abismo que é a moralidade e o instinto. Quando se achou estava a porta de uma dessas casas de diversão noturna. Pagou os cinco contos de réis e subiu as escadas sob a luz avermelhada e borrada do bordel. Ele sabia que não era bem assim, mas afinal queria apenas poder fingir. Sempre lhe disseram sem motivo algum que tudo iria mudar e lá estava ele, uma mulata de um metro e oitenta no colo. Ela não era bonita, mas possuía aquele charme que todas tem, sabia onde tocar e como falar. Era uma atriz da vida, que aprendeu tomando muito na cara. Ela tinha os dentes um pouco tortos e o corpo já não era de nenhuma menininha, pedia trinta conto e mais o dinheiro do quarto. As luzes, a música, o sentimento de solidão aliado a euforia do toque mesmo que vendido de alguém. O nó na garganta a lagrima reprimida, tudo forçavam o pobre Zé a entrar naquele quarto.
Foi um ato de silêncio, inexpressivo e vazio como a sociedade que o cercava. Ela fez como se seguisse um manual de instruções. Se ajoelhou, tirou as calças do Zé e lhe deu prazer com a boca, depois o fez deitar na cama e foi por cima, quase que no automático. Um objetivo claro era, fazer o cara ejacular rapidamente para assim buscar outro cliente e assim ir ganhando a vida. O Zé como muitos outros não demorou e logo se encontrou perdido no sentimentalismo que pairava no ar. Ela enquanto foi até o banheiro, porta aberta e se limpou ali com um pedaço de papel higiênico causou uma depressão maior ainda no peito do Zé. Cantarolava baixinho: “Se o senhor não tá lembrado, dá licença de contar...”. Ele tentou forçar um sorriso em sua careta misto de tristeza e aflição: “Adoniram falava de nós.”, ela sorriu tão ou mais cinicamente e disse agora sem a melódia: “Deus dá o frio conforme o cobertor” e abriu a porta indicando com a cabeça pro Zé sair.
O Zé que agora só via tristeza naquela casa de tantas diversões saiu e caminhando foi até o Largo dos Aflitos, cada passo doía no coração. Achou um boteco aberto, clima pesado, algumas almas solitárias timidamente bebendo a cachaça nossa de cada dia. Buscou seu lugar no meio de seus irmãos de alma e pediu mais uma dose pro Ceifador. Lembrando de sua infância viu o dia clarear e foi jogado na rua como saco de esterco, sem um centavo pra pagar seu mais nobre analista. Caminhou por algum tempo perdido até se ver na frente do mesmo bordel que o acolhera algumas horas antes, acreditou que era um milagre. Tropeçou o meio fio como se dançasse salsa e sentiu o chão lhe acolhendo tão maravilhosamente bem. A paz.
quarta-feira, agosto 29, 2007
terça-feira, agosto 28, 2007
Vanguart - Vanguart (2007)
É bem complicado falar de uma banda como o Vanguart, afinal toda essa nova leva de bandas devem muito ao Los Hermanos que bateram no peito e souberam criar uma nova identidade ao Rock nacional. É muito difícil desassociar a referência direta que foi o quarteto carioca para toda a cena musical conseqüente. O Vanguart porém consegue ser diferente, consegue ter sua personalidade e não se tornar meras sombras do sucesso dos barbudos. A cena musical nunca esteve tão efervescente não é uma ou duas bandas, existem algumas boas bandas surgindo e se firmando como salvadoras do que até então era um estilo em total decadência e na mão das grandes gravadoras ou dos grandes especiais acústicos.
O Vanguart soube, de cabeça erguida, reverenciar suas influências claras como; Bob Dylan, Cat Stevens, Lou Reed, Neil Young, Love ou Beatles, e em momento criou uma mistura nacional de muita classe. Devo admitir que não sou fã das composições em inglês dos caras, e como não sou um completo conhecedor da história do grupo não sei se isso seria uma ofensa a origem do grupo, caso seja me explico: acredito que nas composições em inglês ainda mostra bastante comum, sem entregar um motivo claro de porque escutar Vanguart e não Neil Young. Agora nas composições em português a Banda entrega um novo leque de possibilidades para serem exploradas na nossa música.
O disco está disponível na revista OutraCoisa (iniciativa do Lobão, por sinal uma revista de muito respeito que já lançou perolas como o disco do Mombojó.) por um preço de R$16,90 algo justo na minha opinião. Também pode se conferir o belo clipe de Cachaça no Youtube. Vamos ficar de olho no som deles, aposto numa evolução para os próximos trabalhos.
Destaques: Semáforo, Antes que eu me esqueça e Cachaça.
segunda-feira, agosto 27, 2007
Conto Pré-fabricado de Amor #37
"Sim, eu acredito em você." era tudo que o rapaz magro, na verdade quase esquelético, queria poder dizer. Tinha o cabelo preto como café e escorrido - mesmo sendo prova de ao menos ter sido lavado a aparência era de algo descuidado e sujo - as roupas não ajudavam nem um pouco, o suéter era demasiadamente sufocante para o dia quente e a calça era de um tamanho mal gosto que não acrescentava em nada ao visual quase patético do senhorito. Ele era a típica pessoa que seqüestra dois segundos de sua atenção, pelo visual bizarro, e depois some para nunca mais deixar registros para ti. O que mais lhe agradava era as manhãs de sábado que surgiam quase como um filme em preto e branco, o relógio barato apitando, a sua vista da típica avenida movimenta ainda deserta e o cheiro que vinha da padaria abaixo de seu apartamento. Gostava da forma que a simetria preenchia sua casa: um quadro deste lado resultava em um quadro do lado oposto - ele justificava: "é para não pesar de mais nenhum dos lados" - a quantidade de cadeiras era sempre proporcional e até dois fogões, duas televisões e pasmem duas camas ele tinha, o que infelizmente foi uma má escolha afinal ele percebeu que teria que dormir no chão para não estragar seu perfeita balança. Claro que por muitas vezes estragava sua perfeita harmonia se pegando desligado e reparando que nunca poderia estar em perfeita harmonia com sua mais perfeita obra de balanço.
"Arranja uma namorada." foi a solução que quase todos os davam, ele não tinha muitos amigos. Seu melhor amigo era um perfeito boa vida. Filho único e mimado de uma rica família da zona sul ele levava uma vida de vícios mundanos e era daqueles que adorava despejar desconhecimento da mesma maneira que uma máquina de Pinball continua a engolir moedas. Bola nove como era conhecido demorou quase 7 anos de convivência quase diária para ter a incrível idéia de apresentar sua prima, solitária prima que era bastante excluída da família por ter uma leve tendência ao ato de balancear tudo em perfeita harmonia, claro simetricamente. Foi em um momento de tamanho insight em que bola nove percebeu possuir a solução para o problema dos dois, apesar que foi uma luta interior quase desumana para praticar o bem e unir o casal perfeito.
Foi numa tarde de sábado, bola nove tinha os convidado para assistir o mais novo episodio de "Guerra Estrelares – O Mais Novo Começo, Recomeçado De Novo." o décimo sétimo da franquia. O rapaz vestia seu melhor suéter e tinha tentando por diversas vezes um novo penteado, porém acabou não mudando com medo de parecer descuidado em relação a si mesmo. Ela vestia timidamente um vestido que sua vó tinha feito, era com os restos do tecido que tinham usado para fazer as cortinas de um garoto completamente viciado em pássaros. Ela adorava o vestido azul turquesa com diversos passarinhos desenhados. Quando lhe perguntavam, ela só respondia "Gosto muito de pássaros.".
Foi amor a primeira vista, principalmente quando ambos fizeram questão de deixar Bola Nove no meio afinal, o equilíbrio foi mantido. Depois de quatros horas e meia de raio lasers, espaço naves e um momento constrangedor aonde o roliço amigo deles desaguou em lágrimas com a prisão de um dos terroristas intergaláticos por não entregar seus comparsas o filme acabou sobre palmas entusiasmadas de ambos que procuravam o olhar do outro em um claro ato de agradar mais a si mesmos do que qualquer outro. Ali eles se juntaram e nunca mais se separaram. Afinal, o grande pesar da vida deles que era não poder estar em simetria o tempo todo estava resolvido.
A garota dos pássaros amou o organizado e balanceado apartamento novo e se mudou na manhã seguinte para lá, eles dormiam cada em uma cama, ambos virados um para o outro assim podiam mandar beijos e desejar boa noite até adormecerem aos olhos zelosos do parceiro. Tomavam café da manhã cada qual ao seu lado. No início foi um pouco difícil acertarem a quantidade igual de comida, porém isso era detalhe em uma nova vida cheia de possibilidades. Era quase torturante passar o dia longe e no perfeito caos criado pela sociedade que não sabia agradecer a natureza pelo dom do equilíbrio. Chegavam em casa procuram o centro dela para darem um abraço caloroso e cheio de remorso pelo tempo que ficaram desesperadamente longe um do outro.
Certa manhã de sábado ele foi surpreendido por algo mais do que o seu relógio barato. Um toque quente lhe acordava, ele demorou a entender e percebeu que ela estava se deitando na sua cama, tudo que pode fazer foi dar um grito de total desespero o qual espantou a garota de volta para sua cama. Ela parecia um pequeno animal acuado perante a presa, ou pior parecia uma criança acuada perante aos pais sabendo que fez besteira. Ele levantou-se e logo voltou pra cama, desesperado para manter o equilíbrio na casa. Apontando o dedo para o até então grande amor da sua vida despejou o que era a frase mais temida e difícil de ser dita: "Você não respeitou meu amor, tudo que fiz por ti, tudo que construímos você destruiu. Nossa simetria não existe mais." lagrimas rolavam abaixo em seu rosto. Ela balbuciou "Eu juro que não era minha intenção."
"Sim, eu acredito em você." era tudo que o rapaz magro, na verdade quase esquelético, queria poder dizer. Mas não disse... nem isso... nem mais nada...

