Mostrando postagens com marcador luidou. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador luidou. Mostrar todas as postagens

domingo, dezembro 28, 2008

São socos no estômago, é disso que se trata a vida, socos e mais socos no estômago. estou deprimido, e a cabeça estourando de uma ressaca. lá estava ela, como sempre, ela. falava de tudo, de planos para o futuro, de quando era uma garota, falava de uma vida inteiramente dela. descansávamos sob o luar tímido da cidade. essa putinha meche comigo. eu não a vi por quase um mês, e agora estava deitada na espreguiçadeira, como se fosse seu melhor amigo. ignorante de meus sentimentos, honesta até a alma. honesta com a porra dos ideais. seus cabelos se esparramavam como uma lata de tinta derrubada. ficamos ali, ela forçava a situação e encarava o meu falso desdém. tentei manter a fantasia de homem de madeira, sem sentimento algum, oco. não durou muito, minha patética situação de apaixonado me entregava ao primeiro olhar. com ela por perto, tornava-me um estranho dentro de mim, era como se todas aquelas noites guiando minha bicicleta, com as estrelas escondidas na espessa camada de poluição, era como se tudo aquilo fosse de um tempo que não vai mais voltar. ela era tão honesta que fiquei com nojo de mim mesmo, nem sequer podia enfrentar seus olhos cálidos. não a beijei. o grande espanhol, conquistador e cheio de si, murcho só se deixava postar feito mera estátua acompanhante. e agora? aonde está o desejo? e a paixão? preciso manter meu nível. eu me sentia miserável, toda a merda de sentimento dentro de mim não passava de palha. ela podia estar do lado de um presunto frio que pouca diferença faria. o nojo, o terror e a humilhação me queimavam. enfiei meu rosto entre as pernas com vergonha. ela falava de seu amor. alguém tão distante que me evaporava ao seu lado. brutalidade. no final só resta pó mesmo. mas esperem só, tão certo como existe um Deus no céu, alguma hora vai se erguer um homem desse pó.

sexta-feira, novembro 14, 2008

Mas e agora? Tenho certeza que você me pergunta isso, e agora? Eu não sei, escorrendo de bar em bar eu me conformei que a felicidade é irritante. Se o Luido de antes já tinha uma pré disposição para a melancolia e solidão, o de hoje é mais credor desta fé. Acabei de fazer vinte e quatro anos, vai me dizer que sou jovem pra cacete, mas é mentira, se você chega nessa idade fodido porque nunca viveu com o sangue bombando a mil no corpo, você não viveu, sobreviveu feito um zumbi durante um quarto de século. Quando falo de solidão, falo do meu quarto, meus discos, meu cigarro e meu canto. Depois de três facadas fulminantes no coração, viver sozinho é reconfortante. E isso é uma opção consciente. Um desafortunado não deve ser confundido com um anti social, eu apenas cansei. Sou um descrente. O que é amor se não a porra de uma faísca? Quer coisa mais irritante? Eu vou sair de casa, preciso do meu canto, da minha solidão real. Preciso fugir. Chegar sozinho em algum canto, apenas com meus sapatos. Meu medo é o frio. Um apartamento por menor que seja vazio deve fazer um frio do inferno. O inferno astral nunca passa. Essa guerra eu já perdi de fato, me resta fumar meu cigarro e beber meu uísque.

terça-feira, novembro 04, 2008

Redenção

Meu maior desejo é redenção. O mundo gira, me fala sobre minha vida, me fala sobre minhas dores. Me fala sobre como foi perder você pra mim mesmo. Qual é mesmo a essência da vida se não a dor que vai e vem sem bater, a mente dessossegada e a alma pegando fogo? Seja qual for, o fato é que eu conheço bem. Estava dedilhando no meu violão horas atrás, arrependido de passar o sábado a noite em casa, a espera de um telefonema, nem sei ao certo pra onde iria se tivesse saído. Me escondo atrás desse violão e das cicatrizes. Parece que tudo perdeu um pouco de profundidade, tudo está plano como o chão que sempre me ampara nos porres. Eu queria dedilhar uma canção definitiva sobre o amor que não deu certo, sobre a Ana, mas, umas verdades na cara a mais ou menos não vão fazer diferença. Me sinto como que em um vôo cego. Tarde demais para saltar. Eu queria ter dezessete novamente, e estar embrulhado nesse amor. Mas não, os anos pesam e vejo que já não sei mais o que fazer. Torturante, sofrimento e dúvida. Quase meia noite de mais um sábado perdido e você não me liga. Nessa espera, minha paixão e o meu martírio se confundem. Vou ligar. Essas emoções em pedaços é angustia entalada na garganta. “Como você tá?”. Por que me sinto um vagabundo sem conhaque. Um jovem inseguro trancado em casa. “Eu queria te ver.”. Eu sei que tá uma noite fria, mas tudo que eu queria era uma chance. E não ficar sozinho com essa mesma música. Chega desse reverso de amor. “Não vai dar?”. Acho que serei para sempre um derrotado mesmo. Que porra, a vida é uma loucura mesmo. Vou sair pra dar uma volta.

quinta-feira, outubro 30, 2008

E ela?

Eu disse que queria um pouco de paz. Que estava bem aonde estava. Que não precisava de mais aventuras. Isso tudo pôs o barraco abaixo e foi ali que tudo começou a desmoronar, em um enorme efeito dominó. Pela noite eu disse que não tinha como dar certo, era uma dor aguda falar que não tinha como dar certo, mas era o que eu podia fazer. Ele, com seus olhos brilhando, não desistiu. Disse que eu era louca e que estava fugindo do inevitável, fugindo da felicidade. Eu disse que mesmo assim não havia a menor chance. Ele disse que me amava. A dor aguda apertou, eu também o amava. Mas mesmo assim. Ele disse que iria esperar. Disse com a boca amarga de um conhaque barato, te espero no meio fio. Mas mesmo assim. Ele não sabia o que fazer da vida, pra onde ir. Eu ficaria na minha segurança. Sendo sincera, nem sabia muito bem o que faria em seguida, talvez passar um tempinho comigo mesma. A cena me imobilizou. A balada toda era um funeral agora. As pessoas dançavam como numa marcha fúnebre. A introspecção não é o meu forte. Me agarrei ao meu porto seguro. Eu não o amo, mas ele me sustenta para que eu possa viver. Ele me sacudia, pedia atenção. Eu apenas contemplava, contemplava o seu coração se partir pela minha covardia. Eu me perco nos limites nem sempre bem definidos entre realidade e ilusão. Tenho certeza que pude ver aquele homem se perdendo no rastro do desamor. Ou pode ter sido ilusão. Me afastei ao som massante da música. Beijei sedenta por paixão a boca do homem vazio que me acompanhava. Me sentia a beira de um penhasco enorme, agarrei como podia aos braços dele, me entreguei como nunca, saímos e transamos em seu carro, em uma travessa escura da Pamplona. Naquele momento, eu o amava, quando estivesse sozinha novamente, amaria ao outro. Essa minha trama sobre perdas e sonhos está longe de acabar. Engulo seco, ainda com gosto de porra na boca. Agora já sozinha, caminho os últimos metros até em casa. O celular vibra. Você tem duas mensagens. O coração vira uma bola de basquete, passando de mão em mão e sendo arremessado para todos os lados. Se ao menos alguma coisa fizesse sentido.

sábado, outubro 25, 2008

Luidou no fim.

hoje eu trabalhei bastante na oficina. meu pai foi atencioso, percebeu que algo ia errado, quis saber quem era a garota. o velho é foda, matou todo o mistério em menos de meio expediente. minha resposta foi dada com um silêncio e uma maior concentração no trabalho. sentei pra almoçar banhado de suor, fazia um calor infernal e aquela garagem era um verdadeiro forno. comi muito depressa e tomei um café. voltei pro trabalho. era só me manter ocupado. o céu tava num tom violeta bizarro, e eu nem vi o tempo passar. quando me dei por conta, não tinha mais o que fazer, havia desmontado e recolado as peças da moto centenas de vezes. eu estava vazio, tinha escorrido junto com todo óleo que tiramos da moto. sentei com as mãos sujas de graxa no velho vaso de minha mãe, que outrora sustentava uma bela palmeira em miniatuara, agora não tinha nada, terra batida e bitucas de cigarro, e o tempo que não volta pra essa planta. meu velho tinha saído pra fazer uma entrega, sentei ali no escuro e chorei. lembrei de nosso beijo projetado. nunca chegou a ser como eu sonhei. estávamos na praia, nadávamos e beijávamos como velhos amantes. Depois ela se vestiria e com seus olhos brilhantes me diria que me ama. eu quase sentia a noite de verão escorrer por meu corpo sujo. se não fosse o gotejar chato da torneira do outro lado da oficina. refleti por uma fração de minuto, não sei porque, alguma coisa se rompeu dentro de mim. parei de chorar, as lágrimas secaram. meu coração despejou todo o âmago de cólera e tristeza num choro sem lágrimas, sem barulho, um pranto silencioso e fatal. nem certeza de estar vivo eu tinha. afinal vivia como um morto. ela, Ana, ela me matou. me olhei no espelho da moto, tinha os olhos vermelhos, cheios de um profundo vazio. reencontrei a cama, fui direto pro meu quarto. estava esgotado. acho que dormi, ou não, me dei por conta de algumas estrelas, tão raras no céu dessa cidade. a paz da noite acalmava minha alma. a noite, nada mais era do que uma trégua entre dois dias torturantes. não me sinto pronto a reviver tudo. essa grande cólera, esse grande vazio deixado por ela, ainda não purificou esse bastardo. eu, estou indiferente a mim mesmo. desprendi-me desses valores fúteis, desprendi-me de mim mesmo. Ana não vai voltar a figurar aqui, nem mesmo eu vou voltar a figurar aqui. Com o que resta de coração, desejo que me apedrejem com ódio do covarde que me transformei.

segunda-feira, setembro 01, 2008

Estou na Rua Augusta. Escuto uma música dos anos 60, meu estômago se contorce. O balcão do botequim é de um granito impessoal, frio como a alma dessas putas que tomam o último trago da noite. Nesse boulevard, a decadência é alimento pro meu ego. Ao fundo tem uma mesa de bilhar, um casal de veados faz um jogo lento e cheio de enrabadas descabidas de pudor. Lá fora a chuva rala insiste em criar essa atmosfera congelada. Olho e não sei se já passou muito ou pouco da meia noite, nada mudou. A vida de todos que estão por aqui não vale uma garrafa de uísque bom. Me contento com um velho oito e encaro o reflexo de um morto no balcão reluzente.

Ainda estou meio anestesiado e não lembro de muita coisa. Não lembro do último porre, nem lembro como vim parar no centro. Foi dado um delete em algumas memórias, agora estou razoavelmente lúcido e sei que devia estar em casa. Olho pra tevê velha e mal sintonizada e alguma produção B passa no corujão. A porta de ferro do bar já está semi fechada e pago a conta. Não sei com qual dinheiro, respiro, olho para a rua e vejo o sol se levantar ainda que tímido. Sinto a vida começar a brotar na cidade.

Caminho rumo a Paulista e meu estômago me lembra que provavelmente a última coisa que ingeri foi no café da manhã passado, ou pior, antes disso. Aos poucos as ruas vão se enchendo de escravos. Inspiro e expiro, sinto a realidade voltando a tomar conta do mundo. Bêbado e desesperançado não tem espaço no nosso pequeno mundo. É, o mundo é uma pequena gaiola.

Sinto apenas meu corpo, tenho esperança de não ser apenas um zumbi. A barriga doí e me lembra que sou humano. Apesar de não ter decência alguma, eu estou compondo deliberadamente minha própria história. Passo a mão no bolso e vejo mais algumas notas amassadas e resolvo tomar um ônibus pra casa. Enquanto todos estão vindo eu estou voltando. Minha cara crivada de tristeza deve provocar compaixão, duas pessoas me perguntam se estou bem.

Silêncio no caminho. Escuto o motor, escuto o trânsito porém nada é sútil o suficiente para me fazer fugir do silêncio. Sonho um déja vu. Sou um perverso urbano, masoquista e sem escrúpulos. Chegarei em casa fedendo álcool e provavelmente levarei uma sova do velho. Deixei ele na mão, as motos devem estar acumuladas e a culpa é minha. Só me resta o vazio que é trabalhar sem objetivo, trabalhar sem sonhar, viver sem ela.

quinta-feira, agosto 14, 2008

Eu sei que você é um anjo. As calçadas estão cheias de diamantes e isso só aumenta o seu poder de brilhar. Como uma caixinha de jóias raras, você me deixa cheio de borboletas no estômago. Só queria que de alguma forma eu conseguisse chegar mais perto. Eu vejo carros em minha volta. Acho que estou flutuando numa bolha gigante. Eu nunca vou sair dessa vivo. Me sinto preso numa tipo exótico de sonho lisérgico, eu tento manter minha cabeça no lugar. Pena que ela cai rolando e se perde na ladeira da memória, desembocando no córrego das almas. Logo ali antes da Nove de Julho.

Eu não posso garantir que isso seja realidade. Enquanto você caminha na sua calçada de diamantes nada faz sentido. Isso é um devaneio na forma de texto? Um texto destruindo minha realidade? Um autor insano cuspindo na minha vida? Ou uma sútil mistura de tudo isso? Tão sútil e sexy como escoar pelas coxas de uma bela mulher. Ela caminha e brilha, eu flutuo nessa bolha imensa. Gostaria que fosse uma bolha de champanhe.

Vejo além da Paulista o Mar. O belo e infinito mar. A bolha acelera e me leva até um pequeno porto que teima resistir as fortes ondas. Além do alcançável lá está você. Uma estranha na cidade, agora perdida no mar revoltoso. Estou suando feito um porco. Um velho segurando uma pequena corda, na outra ponta um barco tão velho quanto ele, os dois se misturam. Me jogo na velha embarcação. O velho e o mar se separam, eu destruo essa tênue afirmação e vago no oceano em busca do brilho das pequena caixa de jóias entristecidas.

Remo ondas homéricas e me defendo de gaivotas assassinas. Desbravo o mar como um real marujo. Minha cabeça ainda está se afogando lá atrás, no córrego das almas. Aqui só o corpo decapitado rema contra a razão e busca o brilho que se esvai logo aquém do meu alcance. Eu ascendo de conquistadores, de desbravadores dos mares. Nada é muito. Como um beijo, um beijo nunca é muito. Esse mar podia ser sua boca.

Não saio mais do lugar, me perco em remadas cegas na areia. Um deserto insalubre e castigado pelo sol incessante. Não deve existir noite aqui. Eu queria abraçar uma nave branca e navegar noite adentro, mas o sol está sempre a pino, não adianta. Delírio, miragens, tudo que vivo é um eterno playback. Veja bem, não existe banda. Não existe mais nada que me apeteça. O brilho dela é ofuscado pelo céu azul como um comercial de cigarro. Se ao menos minha cabeça tivesse sobrevivido fumaria agora.

Do chão sofrido, areia e terra seca vejo uma fenda. Passa pouco mais do que dois dedos, Começo a derreter e me adentrar naquele paraíso aonde o sol não brilha. Porra, cade a banda? Cade todo mundo?Nem Dom Quixote passou por tanta insanidade como eu. Uma cachoeira fria e inconveniente me enxurra esse pedaço de tronco sem desejo. Não convencido da boa fortuna de uma cachoeira no deserto, tento chorar... um brilho aumenta, a fenda, o deserto tudo começa a ficar nebuloso.

Abro os olhos, um chuveiro, um rosto familiar, Paulo? Desprotegido. Estou nu no chuveiro do Paulo, que porra é essa? Por cima do ombro dele, vejo a garota do brilho. A caixa de jóias. Aquela fenda maldita deve ter me jogado pra cá. Sempre achei o Paulão um cara estranho, mas uma fenda no deserto interconectando seu banheiro me parecia demais. Pelo menos ela está ali, ela... ela é a Ana... como pude me cegar e não perceber isso antes? O Paulão. Espera, eu tenho cabeça. Está bem acima do meu pescoço, de onde supostamente não pode sair.

“Você tem que maneirar na bebida”

Minha roupa está jogado sobre o vaso sanitário, me deixam sozinho e ouço alguma discussão forte, palavreado tenso, mas o sentido das palavras me escapa. Quando as coisas começam a se normalizar dentro de mim, resolvo me vestir, estou com uma puta dor de cabeça. E de fato não existe deserto, estou na casa do Paulão, quantas e quantas vezes não dormi por aqui. Impossível de não reconhecer. Me visto.

sexta-feira, agosto 08, 2008

Acordei fedendo álcool, ainda deitado busquei o controle do rádio em meio as bitucas de cigarro no criado mudo. Play. Jeff Buckley. Esse cara é um filha da puta, ele sim sabia de tudo que eu estava sentido. O que me resta é esperar no fogo mesmo. Ver se me queimo, ver se voltando as cinzas organizo alguma coisa na minha vida. Ela é minha mulher. Eu não quero dar um último adeus e partir pra outra. Minha vida não é um produto descartável. Uma vez rompido o lacre, deve-se utilizar até o fim, aproveitar o máximo, uma vez jogado no lixo não vão lhe dar um novinho em folha. Meu coração não é fast-food. Porra, beije-me. É pedir muito?

O vizinho tá movendo a mobília da casa. Essa cidade é sufocante. Eu achei que isso não poderia acontecer comigo. Estou largado aqui. Acendi outro cigarro e me sentei na cama. O sol batia forte na janela do quarto, aquilo era um forno e o vizinho fazia uma barulheira infernal. A minha cabeça ia explodir a qualquer momento. E as memórias de nós dois, memórias de algo que nunca aconteceu... você me deu algo, me deu algo que nunca soube estar dando, e agora arrancou a mordidas. Queria poder superar esse muro. Talvez não seja possível uma vez que você, de fato, não me conhece bem. Por favor, me beija, com desejo, com ardência, nada de pena.

Meu pai grita lá debaixo, quer ajuda na oficina. O velho manja das coisas, achou a mulher da vida dele, é apaixonado, faz o que ama também, um espanhol foda. Queria que esse mesmo sangue que corre em nossas veias me trouxesse a mesma sorte que ele teve. Pego o telefone e disco para ela. Caixa postal. Me levanto, o homem tá uma fera, passou do meio dia e temos um carro pra entregar logo mais. Me jogo no chuveiro pra curar a ressaca. Eu daria todo meu sangue por uma palavra de carinho sincera saída da boca dela.

A água gelada enxurra minha nuca e olhando pela janelinha vejo a chuva caindo lá fora. É mesmo um lamento pelos jovens que deixam o amor escorrer pelos dedos. Mas acontece que hoje você está tatuada na minha alma, eu não tenho outra opção se não enfrentar meu destino. Sim, sou muito jovem pra suportar uma situação dessas, mas também velho demais para deixa-la de amar. Será que tenho que esperar e descobrir que não fui feito pra ninguém? Besteira! Ela é minha, fui feito pra ela. Você devia vir em minha direção, não é tarde. Solitária é a minha cama desarrumada, eu sou sonhador é diferente.

Nunca acaba. Eu daria todo meu reino por um beijo no canto dos lábios dela. Não, realmente nunca acaba. Eu queria a doçura do sorriso dela. Olho pra baixo e vejo meu pau flácido pendendo sem desejo, nem ele tem vida sem essa maldita. Eu sou jovem demais pra isso. Mas vou atrás. A água escorre sem dó por todo meu corpo, da mesma maneira que o desejo e amor incondicional escorrem pela minha alma. O Jeff ainda canta lá no quarto. O velho grita da oficina e o vizinho redecora a casa. Eu sinto estrelas na minha barriga.

Jogo uma roupa no corpo e escoou escada abaixo. Jogando um cigarro na boca, sem nem me preocupar de acender, passo pela oficina, ele pode esperar. Até minha bike pode esperar, saio caminhando mesmo. Irei até o serviço dela, no horário do almoço e confrontarei meu amor. Todas essas lágrimas que eu chorei vão secar, será um novo começo. Ela vai ver a verdade no meus olhos, me desejar e eu serei dela, e ela minha. É cedo e tenho todo o tempo do mundo, vou caminhar até o outro lado desse rio morto. Acendo o cigarro, passo no boteco da esquina e vejo uma japonesa, por um segundo minha mente prega uma peça. Essa é mais alta, não tão bela, não é nada que minha amada é. Não vou deixar minha alma se enganar por outra. Meu coração não é de ferro, mas darei um jeito.

Meu amor é uma rosa morrendo, perdendo as pétalas e murchando sem água. Pouco importa, basta um sorriso dela. E minha rosa floresce mais bonita do que antes. Sento num muro na frente do estacionamento e fumo o quinto cigarro da manhã. Minha vida tem se resumido a quantos cigarros fumo até ser homem e encara-la novamente. Em uns dez minutos ela deve estar saindo. Esqueci o Jeff tocando no quarto, até que é uma boa, um pouco de alma naquela cama solitária. Eu vou precisar dela para sempre. Eu sei disso. Cinco minutos. Ele deve estar cantando tudo que sinto agora, ele sempre está cantando tudo que eu sinto, agora mais do que nunca. Próximo do portão vejo um rapaz de costas, a camiseta do Sonic Youth, a fúria toma meu corpo, quando resolvo reagir, vejo que não é um rapaz. Todo mundo veste o Sonic Youth, todos aqui amam ela, e ela ama a todos. Eu sou a variável fora da equação.

Mordo o lábio com força até sentir o sangue preencher minha boca. Essa vida eterna de um estrupo atrás do outro. Sim, ela estupra a porra da minha alma todos os dias. Chuto uma lixeira e cuspo um beijo no ar em direção ao prédio daquela vaca. Você pode até ser meu amor, mas não disputarei atenção com todos esses rostos sem face. Uma multidão de engravatados começa a preencher toda a rua, me perco naquela mar de gente. Infiéis. Morte, esse inferno é demais pra um jovem como eu. Aonde está meu amor? Aonde está minha felicidade? Meu lábio sangra, eu cambaleio no fluxo do mar de gente e deságuo num boteco sujo. Peço pinga e bebo muito mais do que uma vida eterna pode agüentar.

“Luidou?”

Aquela maldita estava na minha frente. Queria quebrar o copo de pinga na cara dela, e fatiar aquele lindo rosto. Não controlo meus sentimentos, choro compulsivamente antes de conseguir falar qualquer coisa. Ela parece nitidamente atordoada, mas deve ser meu coração bêbado imaginando coisas. Ao me levantar vou direto ao chão e logo trato de me escorar no balcão e forçar uma risível tentativa de que nada aconteceu. Ela ri. Eu choro.

“Você me ama?”

Choro e desabo novamente, desta vez sobre o balcão. Turbilhão, a mão dela na minha nuca. Na minha mente seus lábios nos meus. Meu sexo pulsa por desejo de sua carne. Eu não tenho controle do meu corpo. Choro, soluço, sangro, apago minha alma, apago minha consciência. Eu sei que acabou, mas eu continuarei escalando essa cama imensa e vazia. Eu queria saber porque estou sozinho hoje. Se eu sou boa pinta como ela diz, se eu sou encantador e cheio de qualidades porque vou pra cama sozinho? Eu sei porque. Porque hoje é igual a qualquer outra noite. Desmaio ali mesmo, indo de cara no chão. O amor era pra ser natural e real, mas pra ela não. Nem hoje, nem para alguém como você e eu. E a guilhotina cai.

quarta-feira, julho 23, 2008

Tudo que eu tinha era – eu. Como sempre. Ana não retornou nos próximos quinze minutos nem nas próximas duas horas. E eu continuava no meio fio. E por lá continuei, nem sei bem até quando. Se não fosse meus amigos estaria lá até agora, afinal ela era tudo que eu precisava. É ela que enfeita a fotografia na minha cabeceira. Acordei com o sol já deitando, tinha o cheiro dela em mim ainda. Fedia cigarro e amor desencontrado.

Liguei lá pelas nove da noite, dois toques e sinal de ocupado, ela não queria falar comigo. Não deixei recado. Liguei perto da meia noite, mesmo sinal de desprezo. Após o sinal sem vida deixei meu nome e um pedido de retorno. Provavelmente ela e o Sonic Youth estavam ocupados demais sendo donos do mundo perfeito deles.

No intervalo das minhas duas chamadas, fumei três cigarros e liguei para minha garota. Sim, essa é a hora que introduzo a vocês a Eliana. Me atendeu amorosa como sempre, contou do dia perfeito que havia passado, das saudades que tinha estar comigo. Quando ia me despedir, pensei em Ana, no Sonic Youth. Pensei no Sonic Youth dentro da Ana, tentei evitar de imaginar essa cena, mas não consegui.

Se não existisse Ana na história, eu teria me apaixonado por essa garota, dois anos mais nova. Ela era linda, atenciosa, gentil. Usava o cabelo de forma descontraída e era um charme. Se vestia com uma elegância que poucas garotas tinham. Ela nem se preocupava por ter o corpo perfeito ou perder uma barriguinha a mais, nem precisava mesmo. Certamente nunca me queixei de sua figura pra lá de sexy. Ela sabia de todos meus desejos, ela sabia acordar no meio da noite, caprichosamente despenteada e parecer divina. Sabia aonde ir, como ir e como fazer, dentro e fora da cama digo. Me sentia um homem cheio de caprichos ao lado dela.

Mas eu não podia amá-la. Pela razão que fosse, nunca eu teria a intimidade incondicional que tenho com Ana. Parecia que sempre existiu uma névoa que fosse, algo que nunca deixou eu ser por completo dela. Era uma barreira que até hoje se mostrava intransponível. Aconteciam silêncios e mais silêncios constrangedores e isso me incomodava. Estar com Eliana era prova irrefutável do meu amor por Ana.

Depois da segunda ligação, sai andando sozinho, queria dar uma volta, esparramar as idéias dentro da cabeça. Andando por completo sem destino. Acabei me vendo passar na frente do bar que certa vez bebi com Ana na saída da faculdade, entrei e pedi um uísque sem gelo, sentei sozinho, e joguei pra dentro rapidamente o drinque. Pedi mais um, e depois outro, e não sei até onde fui. Fechava os olhos e pensava na Ana. A imagem era forte, gravada no fundo dos meus olhos. Ana de joelhos chupava o maldito do Sonic Youth. Do meu lado dois bêbados completavam o balcão, ao fundo uma mesa com alguns universitário. Um deles, corpulento e com cabelo até a cintura, arranhava um violão. Uma velha canção do Pearl Jam.

Puta que pariu! Quando foi que deixei minha juventude escoar ralo abaixo? Don't Call Me Daughter. Estava acabado, não estava? Ainda ontem era um moleque rebelde, hoje estou aqui junto aos bêbados chorando o amor que não tenho. Não fazia muito tempo estaria naquela mesa. Eu tinha que amar, se não eu não sobrevivo. Eles tinham a mesa, Ana o Sonic Youth, até Eliana tinha seus amigos, eu estava sozinho aqui. Me senti um inseto totalmente insignificante, vagando sem razão aparente pela mesa, esperando a mão pesada me esmagar. Mais uma dose.

sexta-feira, julho 18, 2008

Quero todo o vinho que meu corpo puder agüentar. Vinho é o combustível da minha musa. Ela impede que eu ame qualquer um por completo. É tipo uma neblina, existe ela, existe um mundo a redor, e pra mim apenas as sombras projetadas através da densa confusão causada pela névoa. Ela as vezes nem lembra que eu existo. Talvez nem saiba que eu existo mesmo tendo seus lábios colados ao meu nesse momento. Ela sempre quis esquecer, independente demais para amar. E acho que esqueceu. Deve estar bêbada e sem o menor sentido de sanidade concreta. Nossos lábios sabem o que fazer, aquela boca pequena. Sua pele lisa contra meu cavanhaque volumoso. Tudo me faz querer vinho e me faz querer ser de minha musa eternamente.

Muito vinho. Cada litro que eu consegui ingerir vai nutrir esse fogo doente que me cega do que me cerca. Paulo se atraca com a namorada, foda-se, quero minha musa. Felipe lamenta num canto e minha musa enche a cara. To tonto de bêbado. Eu te amo, lembra? Amor não acaba! Amor perdura. Jogo a cabeça de lado, na esperança que tombasse e rolasse até o bueiro lá fora, o pescoço segura. Minha musa volta. Está frio, eu to quente, ela é quente. Quero morrer. Morrer é perder minha musa. Não, não quero morrer de forma alguma. Estou totalmente desnorteado para dizer tudo que quero para ela. Eu sei que o que sinto por ela não acaba de forma alguma. Smashing Pumpkins bomba no porão.

Eu gosto deles, fazem um puta som de primeira, impossível me imaginar o que sou sem a companhia constante dessa banda. É de certa forma eles são minha constante, só não me perco nesse mar de variáveis por que tenho aonde me agarrar. Queria me agarrar na minha musa, mas ela é escorregadia e agora deve estar ficando bem louca com alguém no andar de cima. Merda perdi minha musa. Não, ali está ela, trazendo mais vinho. Amor não acaba mas bem que pode virar ódio. Eu não consigo odiar essa japonesa. Vou me jogar no sofá pra ver se o sentimento de escoar passa. Eu sou de verdade, eu existo e respiro. Alguém mais perdido nessa noite é de verdade? Ela não está mais por aqui, o meu cigarro acabou, o celular não toca, cada um de meus amigos deve estar perdido demais navegando em suas próprias vidas. Quero entender porquê. Porque você me dá corda, porque você chega perto. Me sinto um porco preso no chiqueiro, você vem joga qualquer coisa, como e depois quase morro de fome para ser alimentado novamente quando já estou a beira da morte.

Porque é que você escolheu essa vida morta, uma vida feia e definitivamente estúpida. To aqui, sou de verdade e você prefere enganar a todos e viver uma vida de bonequinha de luxo, sua falsidade é tão verdadeira que se enganou a si mesma. Eu quero que você se renda ao menos uma vez à sua real índole. Deixe eu instinto falar mais alto pelo menos uma vez. Não, não vá embora com esse cara com a camiseta do Sonic Youth, ele não é o cara pra você. Sou eu quem sou. Aposto que tu vai acabar sem nada, porque tá me jogando fora. Vai acabar sem amor, é uma covarde. Tu nega o amor que quero te dar porque tem medo de perder. Medrosa. Um dia essa doce ilusão que você inventou vai cair. Você é a dualidade em pessoa, precisa de todos e tem medo de depender de qualquer um, preza opiniões que apetecem seu ego e ignora quem quer seu maior bem.

Porra, eu disse para não ir embora com o garoto do Sonic Youth. Banda de merda, só sabe fazer barulho, e agora me rouba a musa. Me escuta. É a última vez que vou falar. Cuidado com essas suas mentiras, cuidado com esse seu falso pudor e essa sua falsa vida. Tu ta se matando, e junto vai me enterrar. E tu não vai ter salvação, porque o céu está vazio minha querida. Nem céu nem inferno são feitos de ilusão, quem não vive a própria vida vai vagar pra sempre na casa de espelhos. Porra Pára! Volta aqui e manda a merda do Sonic Youth, ao menos se eu não estivesse tão bêbado eu podia quebrar a cara dele. O Mutante quer me consolar, a merda esse cagão também, a merda todos. De nada serve consolo se não consigo controlar a mim mesmo. Pára. Cambaleio pra fora daquele lugar e ela não está mais ali, nem sombra do cara ou dela, a esse momento deve ta fodendo ela do jeito que eu queria.

Você não podia ter feito isso. Não podia, não pode, e nem poderia num futuro hipotético. Abre os olhos enquanto eu estou vivo, antes que seja tarde e que a única coisa que te restar for lembranças de algo não vivido. Se entrega. Você não pode brigar com o que tu sabe que é o destino. Desiste, é só dar um passo a frente e se deixar cair no abismo. Eu estou aqui embaixo, esperando, quando o baque surdo do seu corpo bater no chão, vou te socorrer e vamos viver na terra, junto aos ratos sim, mas sem ilusões de uma vida que não existe. Cade você? Eu te espero aqui no meio fio.

quarta-feira, julho 16, 2008

É foda, não sou de guardar rancor. Ela bem que podia me ligar, marcaríamos uma cerveja. É só puxar a cadeira mesmo e sentar. Ser amigos, como ela mesma me definiu, uma rocha, aquele amigo que está sempre ali. Podemos tentar. Mas, porra, não chegue muito perto. Você quem quis brincar comigo. Acontece, ser humano adora se divertir, as vezes somos quem se diverte, outras somos o motivo da diversão. Só não posso te deixar chegar perto. Qualquer um menos você. Eu disse que estava aí pra ti. Sentei na janela do meu quarto, olhando a cidade tombar até bem além dos meus olhos, fumei um cigarro, dois cigarros, um maço. Tive que levantar todo fodido, sem mais um puto de sentimento no peito para continuar. Então saiba que não foi fácil. Fique longe de mim. Podemos até sentar, só não sente do meu lado, e beber qualquer porcaria. Não serei grosso, não apontarei o dedo na tua cara, nem desejarei a morte sua e de toda a sua família.

“Oi”

Eu não quero saber da sua vida e nem de suas noitadas. Muito menos que se sente insegura. Mas para de me olhar agora. Que tal enfiar a merda da tristeza que abre meu peito entre nós? Assim tu não acaba comigo de novo. Pior é que basta um sorriso seu pra me ferrar tudo de novo. E eu sei que se eu perder essa tristeza que carrego no peito, fico sem rumo. Só não chega perto, é pedir muito? Eu não quero saber da sua vida nem de suas alvoradas no relento com cheiro de álcool.

“Como está?”

Você não. É doce feito chocolate gostar de ti, é uma pena que o amargo da ferrugem estraga todo o gosto quando desejo algo mais além da pura e ingenua admiração. E cá estou eu, sozinho, atirado na noite de frente a esse bar, quietinho e sozinho. Quando alguém fala comigo, reúno o que me resta de força e dou um jeito de polidamente recuar. Me encolho. Desabo em prantos quando não tem ninguém por perto. Já me vi escorrer feito garrafa de vinho tombada. Me vejo nas cinzas que se empilham no cinzeiro. Muitas vezes choro, deságuo até achar não restar um pingo de ser humano por dentro. Mas agora eu tenho que ser forte.

“Você está linda.”

Sei que nunca chorei todo o ser humano que tenho dentro de mim porque guardo umas lágrimas, bem no fundo, mas guardo. Você me trouxe esse sentimento de abandono. Inundo os bares atrás de você, e agora que está na minha frente, linda e radiante, com esses olhinhos dançantes de japonesa nada me resta a não ser desabar. Não quero arrumar nada, nem quero mudar uma virgula. Eu só quero ser o que me resta, respirar e engolir as mágoas.

“Senti sua falta.”

Fico imaginando o tempo todo como seria se você fosse verdadeira. Queria só sinceridade. Ou melhor sinceridade doe, eu queria a minha verdade na sua sinceridade. Não quero essa máscara de falsidade. Não quero essa coleira de Prometeu. Quero aquele desejo latente e juvenil de amor sem preceitos. Quero uma noite aonde poderíamos dormir abraçadinhos e no dia seguinte você estaria lá. Não minha querida. Você nunca vai se livrar de mim. Eu não quero me livrar de você. Só não chega perto porque doí.

“Eu...”

Eu a beijei. Chegue mais perto, cole esse momento em minha retina para sempre. Ouvi a respiração de espanto dos meus amigos, ouvi a moto passando lá na rua de casa, e ouvi a cama rangendo pela madrugada adentro. Senti sua boca de cachaça e lembrei do quanto ansiava por isso. Eu não vou desaparecer. Agora vou pensar que a vida que não tivemos pode vir a existir, em breve, esse beijo representa tudo. E eu quero tudo, eu quero as manhãs de domingo, quero os anos que não passaram ainda, quero os filhos que não tivemos e os cabelos brancos que estão por vir. Quero meu violão e sua voz. Quero sua boceta e o seu líbido. Quero essa noite. Quero você perto.


“Now it's three in the morning and you're eating alone
Oh the heart beats in its cage"

terça-feira, julho 15, 2008

Uma noite, inverno, rodei até a Paulista – plena época de festas – estava tudo decorado e mais do que preparado para comemorar mais um ano de sucessos em nossas vidas. Essa avenida marco é uma das mais altas da região central dessa cidade escorregadia, traiçoeira, culpa da chuva de falsidade constante que a cobre. Era madrugada, essa avenida tipicamente empilhada de relógios ambulantes estava de certa feita vazia, a pista molhada impedia que meus pneus dessem firmeza nos movimentos. Estava indo rumo a Pamplona, iria descer a ladeira até a Franca e ali iria encontrar os caras. Seria um encontro inusitado, há tempos cada um tinha tomado seu rumo. Mesmo assim, mesmo eminente a um encontro que me ansiou a semana toda, só conseguia pensar na minha garota, nada conseguia ficar entre eu e ela. Exceto talvez o fato que ela ainda não compartilhava da mesma visão de mundo que eu. Sempre que me dava conta que eu era o tolo apaixonado e ela ainda não tinha tido as bolas de arriscar uma vez na vida, era como se minhas rodas não me segurassem contra um caminhão vindo na via contrária. Era como estar indo para a direção da morte e nada. Por um instante, paz... segundos que precediam a queda. E depois era a sensação de ser uma bala sendo atirada de um revólver torto.

Eu não fui atropelado, a Pamplona chegava e eu via os noturnos se espalhando pelos botecos sem alma. Ela podia estar lá, alguém poderia ter armado em cima de nós, marcado um encontro surpresa. Apesar de ser foda encarar aqueles olhos nipônicos sem me entregar e jogar-me aos seus pés, se ela estivesse lá agiria como homem. Ela que teria que se arrastar por mim. Quando a noite cai, meu coração pesa feito chumbo e eu não vou deixar uma qualquer foder de vez com minha cabeça. A lua tá lá em cima e eu to cheirando pólvora, a qualquer momento ela puxa o gatilho e eu sou atirado. Ela pode nem estar lá. Apesar que seria a cara do Paulo aprontar uma dessas. Eu só queria pedalar até as festas de amanhã, o hoje me cansou, essa mesma música por toda a parte. Queria que tivesse um sol rachando na minha cabeça pelo menos eu não teria que pensar tanto no porque. Pamplona, descendo até minha mão tremer no guidão. O amor sempre vem acompanhado de assassinatos. Queria que minha mente desintegrasse por um minuto. Porra por que você não me fode como fode com ele?

Viro na Franca, ali estão todos, o Felipe, o Marcel, o Paulão e o Mutante. A Velha guarda. Nada da faca que me corta só com o olhar. Nessa hora senti um desejo incrível de descer a serra e me jogar no mar. Minha turma é foda. O Felipe é como um irmão, come feito um pedreiro, tem uma banda de metal e é o cara. O Marcel doido, aparece e desaparece mas é foda. Agora o Paulo que me preocupa ele que poderia ter armado o esquema e chamado a Ana, aquela japonesa me mataria se aparecesse por aqui. O Mutante é irmão de alma, sem mais palavras. Quem sou eu? Pouco importa, o que importa é o que deixa ela feliz. Só sinto dor que levo no peito sobre as rodas. O velho reduto, DJ Club, a máquina de pinball, aonde posso me enfiar e desaparecer até de manhã. O demônio veste um vestido azul e arrumou o cabelo num moicano charmoso, ela está ali, era como se eu fosse morrer. Queria abrir os olhos, e pra isso me basta um cachaça certeira. Quem sabe bebendo ela não desaparece?

segunda-feira, julho 07, 2008

Eu só conseguia pensar naquela garota, os pensamentos iam do belo, do estranho ao sedutor, às vezes até ao erótico. Era uma pena que tudo desvirtuava pelo sinistro. Queria pedalar por ser engraçado. Se mantinha em pé por ser perspicaz. Mas aquele pedalar, naquele momento profundo a emoção era absoluta, uma necessidade incrível de cuspir tudo para fora. Incomum ao que poderia lhe causar tamanha repulsa, sem afeto e sem encanto. Ela era extremamente comum, uma garota que explodiu num gozo de angústia quase apocalíptico. Devastador. Sim, o amor devasta a mais forte das fortalezas humanas. Eu por mais que pedale nas mais intensas fantasias, nunca escapo da incômoda realidade de minha vida.

sexta-feira, julho 04, 2008

Pedalava como se não houvesse amanhã. O asfalto sujo ficava pra trás, o vento me entorpecia os olhos, que atentos visavam só o além do próximo semáforo. Depois de um tempo pedalando a todo vapor, as pernas atingem um estado de dormência ativa, ou seja elas continuam a realizar seu único objetivo. Rodar. O guidão nessa velocidade treme, os braços firmes impedem que eu perca o controle e me acabe no chão duro e áspero. Quando atinjo essa velocidade minha vida se torna muito mais simples. Flashes de minha família, de meu pai e suas mãos sujas de gracha, de minha irmã e seu computador, de minha mãe cuidando dos cachorrinhos. Tudo passa como imagens desconexas e sem ordem aparente. Principalmente as mulheres. Fui homem de tantas, e de tantas acho que pouco restou no peito. Um buraco, desvio e continuo minha pedalada rumo a eternidade. Tenho todas essas imagem jorrando feito sangue de um corte na jugular. Meus amigos, minha música e meu desamparado anseio por rumo na vida.

Está verde, atravesso a toda velocidade a Avenida Santo Amaro, um carro que ameaçava passar no vermelho freia bruscamente e buzina em desespero, nem olho para trás, sigo pedalando sem deixar que nada se fixe na minha mente. A incansável e nostálgica imagem de meu primeiro amor se mistura como a vodca com coca cola que alimentava minhas noitadas. A imagem da ultima desilusão. Por que ela tinha que ser tão egocêntrica, poderíamos estar juntos até hoje se não fosse a sucessão infiel de fatos que acompanha minha vida. Passo a pedalar mais rápido, o asfalto aqui na Brigadeiro Faria Lima é mais liso, é uma reta incrível até muito além do meu campo de visão. Lembro do carro exótico que um dos meus amigos tinha e que cortava o silêncio da noite rumo a um porão qualquer em busca de ar e vida em uma cidade suja e claustrofóbica. Éramos verdadeiros imbecis. Ora um mostrava a bunda na janela, ora outro gritava feito um primata ou mesmo escancarava elogios duvidosos a qualquer bunda que desfilasse na calçada.

Pedalar mais rápido, não quero formar preceitos nem idéias concretas, quero apenas virar uma máquina . Que corre e deixa o mundo escoar pra trás. Um gol geração três sem dar seta vai querer fazer uma conversão ilegal. Pedalo feito um louco, mas tenho faro para essas coisas, aquele cara mais tempos menos tempo vai virar e se eu não estiver ligado vou virar uma poça vermelha no asfalto. Brusco feito um animal acuado me tiro do canto direito do carro e pedalo mais pelo meio da avenida, a tempo de ver o gol prata virar sem prévio aviso. Aquele carro era o mesmo que costumava rodar até o outro canto da cidade em busca de diversão. Lugares desconhecidos, um maluco lendo poesia no carro, vinho, a praça do por do sol. A imagem da praça fica fixa na minha cabeça, a bicicleta já sabe o rumo que deve tomar.

Passo na frente do Shopping Iguatemi, lembro da época que trabalhei feito escravo numa loja. Era de domingo a domingo, com folgas esporádicas. Trago na cabeça a recordação do amor que me levou pedaço do peito. Logo trato de me decompor desses pensamentos chulos e pedalar a praça era logo além do bairro de Pinheiros, a Avenida Rebouças já ficava para trás e minhas pernas eram uma perfeita engrenagem de pedalo. Sempre caminhei só, solitário como um espanhol deve ser. Com as consequências de minha personalidade nas costas. O caralho as consequências. Pedalo. Pouco me importava também o que aconteceria.

Chego nessa emblemática praça encharcado de suor. A tempo de me jogar na grama e assistir o por do sol nessa cidade que me concebeu como lar. Pedalo por que vivo, ou talvez mesmo, vivo por que pedalo. Estava orgulhoso do tempo que havia levado até aqui. O sol se ocupa de lançar os últimos raios sobre essa terra da perdição. A noite, os verdadeiros demônios se lançam atrás da pureza. Ou você se esconde em sua fortaleza domiciliar ou você se entrega a uma vida de instintos e tentações. A fúria de uma paixão repentina assusta qualquer um, menos eu, já levei tanta facada que anestesiado digo que não vou me apaixonar novamente. E sei que isso é uma questão de tempo, de sangue correndo nas veias e de acaso para acontecer. O mesmo acaso que formou meu nome numa sopa de letras na cabeça do meu pai. Ludio, não era Lúcio nem Túlio, não tinha acento nem sentido. É único. Ludio Yuri, um anagrama de pessoa.

Aos poucos você vai entender a loucura que me persegue, por hora não precisa de mais nada. Apenas um trago longo e demorado no meu Lucky Strike. Apenas a porra de um lá menor no violão e o olhar perdido no horizonte. Sou um anagrama sim. Meu nome traduz a metáfora que me assola dia após dia. Apaixonado sem mulher, ciclista sem bicicleta, sobrevivente sem vida. Um artista desolado no coração de uma cidade vil e cruel.