Mostrando postagens com marcador literatura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador literatura. Mostrar todas as postagens

terça-feira, novembro 10, 2009

Juliet Naked

Juliet Naked. Um disco de um músico recluso. Imaginem o Salinger lançando um livro depois de anos e anos de reclusão em sua cabana nas montanhas? Ou imaginem que o Jeff Buckley não morreu, vive até hoje em uma pequena casa no leito do Rio Mississipi, e lança algum material do nada?

O imaginário de Hornby era puro declínio depois de Alta Fidelidade, a idade chegou e a energia se perdeu. Talvez ele tenha encontrado paz em meio as demônios e não precisava mais esvaziar a alma. Eu pedi a um amigo que escrevesse um blog. O cara detonou, foram alguns meses de textos de primeira. Ele se apaixonou e aquietou a alma. O blog? Puro lixo agora.

Hornby voltou em grande forma com esse novo livro. Livro? Do disco, do músico recluso, sobre o amor sem ser romântico, um quê de 500 dias com ela. Sobre o crescer e não achar sentido, não rumar em direção de algo. De envelhecer sem fazer memória de algo. De não viver um grande amor, ou de não achar um grande amor. De tantas outras coisas. O livro é foda. Essas frases desconexas dizem mais do que um texto estruturado.

Uma volta ao blog? A volta do Hornby a boa literatura?

E essas pessoas? Surpreendendo sempre da forma mais inusitada. Estou com uma azia de matar e quero falar de outras coisas. Quero falar sobre 500 dias com ela, quero falar sobre outros livros e mais música. Me cobrem, não quero perder esse espaço.

sábado, maio 30, 2009

Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios

Tenho lido muito menos do que eu gostaria. De certa forma, estou meio tomado por diversas atividades. Mas cavuquei um tempinho para escrever sobre esse livro.

“O amor é sexualmente transmissível.”

É difícil falar, eu demorei pra ler, mastiguei quase que em câmera lenta. Um romance sobre o amor. Não um romance que envolve amor, e sim um romance sobre o amor. História comum, ordinária. Chega a ser engraçado, tudo no livro é extremamente sútil. Nada escancarado. Aos poucos você está mergulhado nessa tênue história que envolve um fotógrafo apático, um pastor fervoroso e uma ex puta completamente maluca. E essa mulher, sensual ao extremo, capaz de curvar o mundo aos pés dela. Ela cria um redemoinho numa pequena cidade no interior do Pará.

Não existe certo, não existe errado. Nem mesmo linearidade na estória. É tudo extremamente fluído. Você se perde nos pequenos causos desses personagens. Inclusive se perde ao ponto de não saber o que é ficção e o que foi puxado da realidade. O livro funde-se com a vida real de uma forma impressionante. Sexo, suor, fluídos, porra, sangue e lágrima, tudo ali transborda de forma crível.

Pra quem não conhece. Aquino é um jornalista, repórter e roteirista dos bons. Escreveu “O Invasor” que acabou virando filme. É literatura brasileira contemporânea de altíssimo nível.

É de matar, mas frases como essa, ganham o livro:

"Falamos, falamos, falamos. E mesmo assim faltou dizer tanta coisa. E escutar também. Ela nunca disse que me amava. Jamais ouvi de seus lindos lábios a sentença que pronunciei algumas vezes."

Fascinante.

segunda-feira, dezembro 08, 2008

Como diria o Galera em seu último romance, eu queria que o português tivesse uma palavra para definir aquele momento que seu coração quase para, a respiração falta, a tensão e a satisfação são tamanhas que atônico você não consegue nem pensar. Se existisse uma palavra que traduzisse isso, seria o resumo do meu estado ao terminar de ler o mais novo romance de Daniel Galera. O cara é um gênio mesmo, dessa nova geração Internet é de longe o melhor. Cordilheira é simplesmente fantástico.



E o novo filme do Garrel? A Fronteira do Amanhecer. Estreou esse final de semana, seguindo a mesma escola, o francês prática sua arte no preto e branco, nos curtos planos sequências e na força da emoção. Intenso. Febril. O quão diferente da loucura é o amor? Não sei. É de quase se surtar ao longo do filme, um fotografo que se apaixona por uma atriz. Acontece que a mente dela é um turbilhão caótico. O fotografo por excelência busca capturar o plano perfeito e ela dentro de sua sanidade não esparramasse por todos os lados, foge do plano. Em vários momentos me peguei sem saber o que acontecia, porque de maneira sensacional o diretor busca deixar você no ar. Deixar você sem entender tudo daquela mulher tão complexa. Muito bom.

quarta-feira, outubro 01, 2008

Saiu meu mojo! Quem quiser dar uma olhada.

Mojo do Wilco

segunda-feira, setembro 22, 2008

Troca de passes.

Sem perder muito tempo.

Filmes



Violência Gratuita: Versão idêntica ao original Austríaco. Os atores não devem nada, e o clima é o mesmo. Pra quem não sabe, é um exercício de sadismo. Uma família vai passar as férias na casa de campo e acabam por cair nas mãos de dois psicopatas. Foge e muito do convencional dos filmes de terror. Talvez isso faça valer a pena. É uma maneira diferente de assistir os filme de Terror. No meu caso, como eu já tinha assistido ao original alguns anos atrás, o impacto não foi tão forte. Mas recomendo aos que não viram nada. A experiência no cinema é sempre melhor. (7/10)



Crônicas de um Amor Louco: Adaptação dos contos do velho Buk. Gostei por ser uma versão bastante fiel. Minha garota que recém leu os livros que são retratados aqui, confirmou que o diretor foi bastante fiel. O ator é meio canastrão, mas acho difícil fazer o velho safado sem ser canastra. O filme deu uma cansada no meio, mas é bem bom. Com cenas lindas como a primeira transa com a Cass. Para os fãs desse universo decadente que é alma humana. Imperdível. (8/10)

Livro



Os filmes de minha vida: Faltam vinte páginas, tem sido um sacrífico acabar essa leitura. E olha que raramente eu empaco em livros. Albert Fuguet me enganou, depois do fantástico Baixo Astral, me veio com esse livro que para não dizer outras coisas, simplesmente não me apeteceu em nada. Muito chato. (2/10)

sexta-feira, agosto 29, 2008

Bukowski - Cartas na Rua

Cartas na rua, mãos no barro, corcunda da escravidão... tá tudo aí, somos nós que não percebemos...

Mal dormi essa noite, acabei de botar em dia a leitura de mais um livro do Buk: Cartas na Rua, foda. Na real eu nem tenho muito o que falar do livro. Achei foda, achei cru, achei real. Eu que até então só tinha lido contos do velho, não imaginei o quão incrível podia ser um romance dele. Agora estou louco atrás de seus outros romances. É fantástico como ler um pouco da rotina que Buk serve de espelho para o que vivemos hoje. O cara trabalhou onze anos nos correios, numa função repetitiva e desgastante. Teve diversas mulheres e ao seu modo amou todas. Seu café da manhã era cerveja, e seu corpo pedia pelo amor de deus para uma rotina mais amena. E ele estava lá, na sua folga bebia mais, trepava mais e ainda se jogava nas pistas de corrida de cavalo pra gastar seu pouco dinheiro.

Será que sonhar é uma característica dos jovens? Porque, acompanhando o velho lá, ele foi deixando de sonhar e desejar algo mais. Não que ele tivesse majestosas metas quando jovem, porém ele pelo menos nadava a correnteza, em dado momento abriu os braços e se deixou boiar. Os jovens sempre estão a um passo de mudar o mundo. Eu acreditei que poderia mudar o teatro, que poderia levar o teatro a todo jovem brasileiro. Tudo que consegui foi uma peça mediócre e alguns familiares e amigos aplaudindo por pena no final. Ou será que as vezes sonhamos como o sonho americano? Uns mais outros menos. Acho que tudo faz parte da mesma grande bosta. Eu não sei, tudo que me vem é um imenso vazio. Cartas na Rua é um puta livro, de destroçar e mergulhar de cabeça nessa coisa que chamamos de alma. Pra que alma? Palhaço não precisa de alma, e somos todos palhaços nesse circo.

Não estou frustrado, nem triste. Aprendi com o velho. Tire as fontes de prazer da vida, foque-as e vá em frente. Sexta-feira, tudo que eu queria era beber uma cerveja, e é isso que vou fazer logo mais. Trabalho? Sim, trabalharei para ter a cerveja. Simples. Posso jogar um saco de couro nos ombros e sair por aí distribuindo cartas, o meio pouco importa, importa o fim, e no fim sempre estará meus reais desejos. Desejos preconcebidos por uma cultura de massa? Foda-se, não me interessa. Usei boa parte do espaço para jogar idéias sem uma aparente linha. Foi uma necessidade de regurgitar boa parte dos pensamentos para não surtar.

E mesmo sem nexo, afirmo. Leiam Cartas na Rua. O livro é foda.

Semana que vem vou jogar por aqui algumas músicas da minha banda. Tá ficando bem bom. Eu realmente fico feliz tocando ali. Tocando nossas músicas, fazendo nossos sentimentos virarem som.

terça-feira, julho 01, 2008

Centenário Guimarães Rosa

João Guimarães Rosa, 100 anos do fino da literatura brasileira. 52 anos de um dos romances mais importantes do país. Infelizmente, uma margem quase insignificante tem acesso a esse verdadeiro mestre. É uma pena que críticos, na minha modesta opinião, burros classifiquem-o como regionalista. O autor que completa o centenário transcende o aspectos ordinariamente locais. Ali, o sertão é a alma do homem.

Mergulhar nessa obra, não é apenas acompanhar as aventuras superficiais do enredo. É sim buscar enxergar e interpretar símbolos e referências a diversos pontos como Astrologia, Hinduísmo, Maçonaria, Platonismo, Taoísmo, Psicoanálise ou mesmo Alquimia. É uma literatura de labirintos. Nada é definitivo. Uma abertura fantástica de possibilidades nos abre com a primeira página de seu legado.

Não é para ser uma obra rasa, fácil ou mesmo um mero entretenimento. É algo feito por alguém que realmente teve muita consciência do que estava fazendo. Dostoiévski, Borges, Pessoa, Cervantes, Goethe e um grupo muito seleto chegou a um grau tão intimista com a palavra. Poucos souberem através da palavra despertar o inconsciente do leitor de forma tão sublime.

“Todos os meus livros são simples tentativas de rodear e devassar um pouquinho o mistério cósmico, esta coisa movente, impossível, perturbante, rebelde a qualquer lógica, que é a chamada ‘realidade’, que é a gente mesmo, o mundo, a vida”.

Nesse site da cultura temos um belo acervo de fatos da vida e obra do autor. É uma pena que as escolas tratam a literatura como obrigação de vestibular, e não dão o tempo e o cuidado certo a uma obra tão maravilhosa quanto essa. Que venham mais 100, 200 e 300 anos a esse grande homem. Que na verdade pouco importa o tempo, porque se um objetivo da vida dele era a busca pelo infinito, sem duvidas isso lhe foi concebido.

"Quando escrevo, repito o que já vivi antes.
E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente.
Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo
vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser
um crocodilo porque amo os grandes rios,
pois são profundos como a alma de um homem.
Na superfície são muito vivazes e claros,
mas nas profundezas são tranqüilos e escuros
como o sofrimento dos homens."

Pra quem quer se iniciar na obra, procure por:

Primeiras Estórias
Sagarana
Tutaméia – Terceiras Estórias

Cada qual com seu charme. Todos são de contos e estórias curtas. Para mergulhar no grande romance, busque o Grande Sertão: Veredas.

segunda-feira, junho 30, 2008

Meu quarto é quente, paredes de madeira isolam o calor lá dentro. Minha cama, tem uns três cobertores e é aquecida por Fante, Bukowski, Camus e tantos outros que repousam nas gavetas abaixo do meu colchão. Já era pra estar quase acordando pro ordinário dia. E tudo que tenho é um lençol ensopado. Inquieto, queimando e com os lábios rachados de febre e auto flagelação. Pior é febre causada por peito tenso e olhos secos. Febre de não relaxar e ser compulsivo feito o diabo. A cidade toda já acordou e germinou por todo esse asfalto gasto. E eu ainda estou no blues capenga e torto dos Stones. Violão chorão e o Mick lamentando um amor em vão. E tem gente que acha que sabe o que se passa no próximo. O caralho, cada um de nós tem a porra de um universo inteiro dentro, foda, foda, acho que não vou compreender nem uma vírgula do que sou. Eu não sei o que está acontecendo comigo. Sei que sou um filha da mãe compulsivo, nem de perto sou frouxo e com peito aberto tenho febre porque vou ligar no dia seguinte, vou acordar com a mão na cintura dela e vou faze-la minha. Foda é essa insônia filha da puta. Porque ontem não terminou, ainda é hoje e hoje já estou indo trabalhar.

//

Tive o prazer de conhecer uma mulher que escreve, e escreve bem pra cacete, em breve vou ler o livro dela. O nome dela é Sabina Anzuategui e o livro lançado é “Calcinha no Varal”, admito que estou realmente curioso. Pra quem não conhece vale a pena dar uma olhada no blog dela: Limas da Pérsia. Olhem um pequeno texto.

“Acordei provavelmente às três da manhã, depois de um sonho sobre sucos, sopas e o medo de ter a casa invadida, e um hábito secreto em relação a algo que não lembro, dirigindo carros antigos em alta velocidade e batendo de propósito contra o muro, e minha mãe descobre o segredo e eu viro um homem que foge, e numa curva perde a direção do carro - uma peça escapa do motor, e quando tento alcançar a peça eu acordo.

Não consegui voltar a dormir, e depois de alguns pensamentos soltos tentei lembrar dos meus últimos períodos de euforia, com medo que o ciclo começasse de novo. Mas não consegui me concentrar e lembrei apenas da última depressão, que começou no início de junho.

Aos primeiros sintomas pensei que era uma tristeza e iria passar. Mas meu estado piorou em agosto. Não fiz nada na terça-feira porque era aniversário do meu marido e pensei que ele ficaria muito triste se eu me suicidadesse nesse dia.

Na quinta-feira fui ao hotel Formula 1 e perguntei no balcão se havia um quarto no sétimo andar, pois o barulho da rua me incomodava. Só havia algo livre no décimo primeiro. Achei que seria alto demais, mas ainda assim entreguei meu cartão de crédito e assinei o recibo que o funcionário me entregou. Não acendi a luz quando entrei no quarto. Deixei a bolsa sobre a cama e abri a janela, mas havia uma haste metálica parafusada à base. O vidro só se afastou dez centímetros da parede. Desci até a Rua da Consolação e caminhei até uma loja de luminárias. Perguntei se vendiam chaves de fenda, mas responderam que não. Na terceira loja me indicaram uma casa de materiais de construção na esquina da Alameda Santos. Atravessei a rua. Havia muitos carros e naquele momento eu preferia não ouvir nenhum barulho. A chave de fenda custou doze reais e eu voltei para o hotel.

Tive que soltar seis parafusos. Enquanto estava claro quase tive coragem. Mas foi difícil encarar o abismo debaixo da janela depois que anoiteceu. No escuro, a distância parecia maior.”

segunda-feira, junho 16, 2008

De Cabeça Baixa - Flávio Izhaki

Me peguei num pensamento engraçado esses dias, pensava, no quão moderno e atual é a literatura de gente como o Daniel Galera e Clarah Averbuck, e então parei e conclui, mas esses caras são da geração passada, o que está rolando com quem começou a escrever agora, pós 00, pós iPod, pós Katrina, pós tanta coisa que na real nem faz muita importância, apenas servem de consolo para uma sociedade que gostaria de fazer história.

O livro é bem cru, com uma escrita até bem trabalhada em contraponto a crueza de sentimentos, a crueza das palavras que expoem sem medo o ser humano assustado, perdido, sem rumo, sem coragem de encarar o mundo. O jovem de hoje em dia que não tem bolas de verdade para mandar algo a merda e se jogar no mundo. O jovem hoje que por mais que faça isso, no fundo só está fugindo do real problema. Uma juventude covarde, sem sonhos e sem cara.

Temos um protagonista numa forte depressão por ter seu sonho diluído na dureza que é a vida. Apontado como futura revelação da literatura, nosso protagonista lança um livro que é recebido de forma pífia, ele perde a namorada, perde a vontade de viver e a capacidade de encarar seu fracasso. Foge. Foge pra longe e de todos. Encaramos o momento em que esse personagem recebe uma brusca reviravolta do destino, e se vê obrigado a encarar o passado. Esse fato inusitado, essa total falta de lógica ao se deparar com seu passado ali, vivo e pulsante na sua vida, faz com que nosso anti-herói volte a civilização e parta numa busca por si mesmo.

A grande questão é: como fica a nova literatura? De certa forma, tenebroso, ao mesmo tempo que a internet possibilita uma facilidade incrível, os leitores se acostumam com leitura rápida, para se ver nos intervalos da vida... ao mesmo tempo que muitos podem surgir e se fazer escritor pela rede... ela não colabora para que o lado dos leitores cresça. Ou pelo menos ainda não colaborou. O livro “De Cabeça Baixa” vale a pena, nos leva a pensar seriamente em nossa relação com a literatura.

segunda-feira, junho 09, 2008

John Fante - Escrevendo a vida.

Um moleque, garoto que só, filho de um pedreiro italiano e uma mãe extremamente religiosa. Nasceu no Colorado em 1909, cresceu em meio a pobreza e ao preconceito típico aos estrangeiros naquela época. Existia somente uma meta, uma meta que quase o conduzia a insanidade, ele queria ser escritor.

Seu sonho o conduziu até a Califórnia. Lá, trabalhava no que aparecia, muitas vezes se submetendo a situações degradantes. Vivia jogando-se em quartos de hotel de quinta categoria e seu talento de escritor só começou a aflorar com a publicações de pequenos contos na revista “The American Mercury”. Nessa altura já existia muito do que viria a ser o seu alter-ego, “Arturo Bandini”.

É nesse ambiente dúbio que um dos maiores novelistas norte-americanos surgiu e cresceu. Apesar de um começo quase meteórico, com dois romances de sucesso, logo caiu no esquecimento, tendo obras rejeitadas e uma família pra cuidar. Havia se casado com sua fiel mulher e teve quatro filho, viver de escrever romances e contos não estava funcionando. De maneira quase irônica, Fante achou a maneira mais nojenta de ganhar dinheiro, escrever roteiros para Hollywood.

Mesmo detestando escrever roteiros, de certa forma conseguiu criar uma sustentabilidade e assim conseguiu uma casa pra sua família em Malibu. E somente doze anos depois lançou outro romance. “Full of Life”.

Porém o Inferno só tinha esquentado os pés de Fante, o garoto que sonhava ser escritor teve complicações sérias com diabetes e acabou por ter uma perna amputada e por fim mergulhar na escuridão de ficar cego. E foi o velho safado que salvou a pele de Fante com a republicação de suas obras, Bukowski foi parte responsável pelo redescobrimento dos trabalhos de Fante. Isso foi suficiente para um último suspiro desse escritor, que em seu leito ditou seu último livro para sua esposa. “Sonhos de Bunker Hill”. John Fante morreu em 1983. E desde então seus livros tem sido alvo de novas edições e finalmente tem sido reconhecidos como primor de literatura.

Em suma, o cara é extremamente foda, e principalmente os romances que são protagonizados pelo Bandini são obrigatórios para qualquer um ler. Procure: Pergunte ao Pó, Espere a Primavera Bandini, Estrada para Los Angeles, Sonhos de Bunker Hill.

quarta-feira, maio 28, 2008

Slam - Nick Hornby

Nick Hornby nunca foi de escrever livros com grande profundidade ou as reflexões mais importantes a cerca da vida. Sempre foi um cara que escrevia de forma simples, sem floreios e disparando referências Pop pra todos os lados. No geral eu sempre devoro os livros dele. Alta Fidelidade continua sendo o Top 1. O cara realmente não perde a mão e consegue sempre inovar de alguma maneira singela. Hora escrevendo sobre um cara de meia idade sem aspiração ao futuro, ou sobre quatro pessoas que querem se matar, ou sobre suas músicas preferidas, um garoto e sua febre com o futebol, e agora um adolescente que precisa encarar o amadurecimento que chega repentinamente.

Se me pedissem para resumir o enredo do livro, de forma simplória e sem estragar surpresas, temos Sam, um garoto de 18 anos que recorda quando tinha 16 anos e conheceu Alicia, uma garota que virou sua vida de cabeça para baixo. Antes ele tinha sua vida pacata, estudo, skate, ídolos, seus poucos amigos e levava tudo numa boa. Depois de Alicia, tudo mudo...

É uma literatura rápida, que desliza fácil fácil nas suas pouco mais de duzentas páginas. As sátiras do cotidiano continuam lá, os coadjuvantes cheio de personalidade e de certa forma uma pequena lição de vida sobre o eterno processo que é crescer. Talvez um dos pontos que mais me agradou, é a forma suave que o drama é desenvolvido. Chega a soar feio dizer, mas Slam, é um livro com nada demais, apenas um bom livro, mas em terra de cego, caolho é rei, então, um bom livro hoje em dia vale ouro.

Ps.: É incrível como o inglês cinquentão consegue escrever como se de fato fosse um muleque de 18 anos. Impressionante. Queria eu ainda ser tão jovial.

terça-feira, maio 27, 2008

O Homem Dos Olhos Dançantes - Sophie Dahl

Sophie Dahl, outrora a guria que deu pro Mick Jagger, ou a modelo bonitinha que podia estampar propagandas da moda rocker mundo a fora, surpreende nesse pequeno livro.. De mil possibilidades ela escolheu escrever. E escreveu um pequeno conto de fadas moderno. Estamos realmente falando de um conto de fadas, sem tirar nem por o que leram pra gente quando criança. João e Maria, O Patinho Feio, Cinderela, A Bela Adormecida, todos esses contos que tripularam as viagens de nossa infância são clara cama pra Sophie deitar e rolar.

De maneira curta e direta, entramos em um pequeno conto sobre uma garota, que se apaixona, consegue seu homem, briga, se separa, tenta fugir do amor não correspondido e como todo conto de fadas pede, volta ao seu homem no final e resolve o desentendimento e vivem felizes para sempre.

Não é nada profundo e nada intelectual, mas é bonito, divertido e porque não poesia? Um delicioso passeio pelo lado que anda morrendo em nós, um passeio inocente e sem compromissos por uma terra de sonhos, devaneios e sem precisar apelar para violência ou para a competição que hoje é tão utilizada nos desenhos para crianças. Sei lá, todo mundo quer uma pessoa de olhos dançantes e ervilhas-de-cheiro. Ela apenas traduziu num conto que todos deviam ler... inclusive as crianças.

sexta-feira, abril 25, 2008

A Última Casa de Ópio - Nick Tosches

Existe um território bastante sórdido que é o momento em que a alienação a cerca da sociedade se torna uma opção obvia. Se o que lhe levou a essa área foi o amor não correspondido, a falta de perspectiva, a simples curiosidade, a narcisista busca por prazer ou a mera inércia que nos leva a diversos pontos curiosos não importa, o ponto é que existe um elo entre essas pessoas. Um caminho interessante para essa fuga vertiginosa da sociedade e conseqüentemente da realidade é a droga. E é de se pensar que em tempos esquecidos, existiam clubes aonde as pessoas iam drogar-se viver sua realidade particular e fugir de qualquer demônio sem trespassar qualquer regra ou lei.

Essas casas, pequenas realidades alternativas, são retrato de um mundo que foi massacrado pela modernidade, que foi engolido e digerido por uma máquina imperialista que nunca se satisfaz. Nesse curto livro, temos a busca, a quase meta existencial do autor de encontrar o ultimo recanto desses clubes de fuga. No caso, as casas de ópio, locais que permitiam e inclusive proporcionavam um ambiente propicio para o uso da droga.

O grande mérito da questão talvez seja a banalização com a qual acaba por se enxergar o mundo externo ao do ópio. Mostra o mundo que de tão doente se tornou selvagem e agressivo, e que ao mesmo tempo é inerte, sem ação, morto em vida. É uma busca quase pessoal pelo passado, um viver no ontem que morreu na alvorada seguinte. A quebra das regras patéticas do cotidiano. Temos um universo fantástico incrível, prostitutas tailandesas, gangue de motos, yuppies, hábitos estranhos e mais uma onda imensa de situação tão irreais que apenas a realidade nos poderia prover.

Um livro que nos leva a refletir. O quão vazio ainda poderemos chegar? O que era algo fugaz e restrito a uma ocasião especial, tornou-se tabu, e agora nós vemos presos a uma liberdade condicionada, uma liberdade redutível ao funcionamento da grande máquina. No aspecto de mensagem e de conteúdo é uma obra pra lá de interessante. O que me deixou um pouco desapontado foi a baixa qualidade do texto, hora jornalístico, hora prosa, hora poesia, e nunca realmente criando um estilo e firmando uma linha condutora firme. O que me interessou foi a verdade com que tudo foi transmitido, porém um pouco de cuidado na linha narrativa sempre é bom.

Próximas Literaturas. Livros clássicos, cult ou qualquer coisa.

Depois de apanhar um pouco ali, amar alguém a cá e desmoronar em prantos com algumas palavra além de lá, comecei a pesquisar alguns livros que desejo ler, como computador é algo que vira e meche da problemas, e a pesquisa foi feita na internet, papel se perde tão fácil como carregar água em peneira, então resolvi postar aqui no blog o resultado da pesquisa a cerca dos meus próximos interesses literários. Ainda tenho coisas a serem lidas em casa, isso é apenas um despejo de desejos em linhas não tortas, dada a exatidão do computador que não me permite linhas tortas.

Kurt Vonnegut – Matadouro 5 - A obra discorre sobre um ex-soldado dos Estados Unidos que tenta escrever sobre o que aconteceu com ele durante a Segunda Guerra Mundial. Ele tinha presenciado o bombardeio aliado sobre a Alemanha na cidade chamada Dresden. Este fato ficou na história pelo grande número de baixas e destruição da cidade.

Lawrence Durrell – O Quarteto de Alexandria - Traduzida diretamente do original pelo escritor Daniel Pellizzari, O quarteto de Alexandria, do inglês Lawrence Durrell, é considerada uma obra-prima da literatura contemporânea. A tetralogia foi editada pela primeira vez entre os anos de 1957 e 1960, sendo imediatamente aclamada por público e crítica. Numa linguagem sofisticada e intertextual, a série narra a trajetória de um grupo de amigos, seus encontros e desencontros, durante o período da Segunda Guerra Mundial. O pano de fundo é a cidade de Alexandria, no Egito, que, mais do que cenário, é um personagem dessa trama surpreendente e intrigante.

Sylvia Plath – A Redoma de Vidro - Dois anos antes de suicidar-se em 1963, a poeta Sylvia Plath elaborou esse romance sobre uma mulher ? no fundo, ela mesma ? que vai perdendo o senso até que sobra só um surrealista e vazio senso comum.

Joseph Heller – Ardil 22 - John Yossarian é um piloto americano de um esquadrão de bombardeiros durante a Segunda Guerra Mundial. E seu único objetivo é escapar com vida. O primeiro e mais famoso romance do autor é uma sátira aos horrores da guerra, do capitalismo e dos homens.

Luke Rhinehart – O Homem dos Dados - Um psiquiatra competente inicia a procura de uma nova verdade para preencher a lacuna deixada no mundo contemporâneo pelo que considera ser a falência de Freud. Como isso decide que todas as decisões de sua vida serão tomadas com o rolar de dados.

Aldous Huxley – As Portas da Percepção - onde o autor pormenoriza as suas experiências alucinatórias quando tomou mescalina.

Thomas Pynchon – O Arco-Íris da Gravidade - O romance foi publicado pela primeira vez em 1973. Desde então, tem sido considerado como uma das maiores realizações da ficção em língua inglesa de nossos tempos.

Pauline Réage – História do O - obra-prima do erotismo está de volta em edição super caprichada. Lançada na França, em 1954, História de O já alcançou a marca de milhões de exemplares vendidos no mundo inteiro. Neste clássico do sadomasoquismo, a jovem O se deixa torturar sexualmente para obedecer a seu amante, que diz amá-la tanto quanto ela a ele.

Robert M Pirsig - Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas - é uma epopéia moderna que mudou a mentalidade de toda uma geração e continua servindo de inspiração a milhões de pessoas. Esta narrativa de uma viagem de moto feita por um homem e seu filho durante as férias de verão transforma-se numa odisséia pessoal e filosófica e trata de questões fundamentais do nosso modo de viver. Ecoando todas as confusões da existência, este clássico, emocionante e transcendente, tem por tema a própria vida.

Tristessa - Jack Kerouac

Esses dias me deparei com uma garota tentando se justificar do porque não ler. Dizia ela, que os livros são caros e que demandam muito tempo, tornando assim inviáveis a medida que acordamos, trabalhamos, e quando chegamos em casa temos pouco tempo, e que no geral esse tempo já é muito bem ocupado com a janta e a televisão. Acho que o que mais me assustou foi sua firmeza ao afirmar esses conceitos de que o não se tem tempo para ler um livro. O conceito de livros caros foi combatido com o argumento que existem grandes livros em edições de bolso, citei a LP&M por exemplo, e ela disse que duvidava ter algum título realmente bom em edições tão baratas. Quanto ao conceito de tempo eu não entrei em mérito de questão pois a pobre infeliz de fato preza e muito sua novela de cada dia.

Dentro dessa discussão, ficou totalmente cabível, recomendar o livro Tristessa do Jack Kerouac, algo até poético, tendo em vista que certa vez me deparei com um exemplar desse pequeno romance sendo vendido em uma rodoviária a beira da estrada por míseros seis reais. Apesar que a aquisição dessa edição não se deu nesse dia lírico, um motivo nobre enalteceu da mesma forma, comprei o livro pra minha namorada que compartilha mesmo gosto pelas letras.

Aonde está a beleza de um subúrbio na cidade do méxico, e em uma personagem junkie decaída? Uma viciada em morfina que se arrasta pelas ruas mortas da Cidade do México? Nessa pequena história acompanhamos Jack em seu envolvimento poético com essa personagem tão rica como Tristessa pode ser (nome que define por si só o clima envolto). Amor e compaixão que se tropeçam e caem em câmera lenta diante uma sociedade de bandidos e tudo que há de sujo no submundo.

Admito que nas primeiras páginas, por mais que esteja acostumado com a escrita do beatnik, a estranheza e o desconforto imperaram. Ele narra tudo de forma pulsante, um fio de pensamento jogado e destrinchado em um apanhado de letras. Algo como as idéias em Estado Bruto, sem trabalho algum, o que muito bem poderia ser um rascunho, mas que com tamanha sutileza e sentimento transformasse no mais belo exemplo de arte.

Alguns trechos que me saltarão os olhos, me fizeram menininho de seis anos em noite de natal, frente ao embrulho carnavalesco:

"La vida es dolor" (a vida é dor), ela concorda, diz que a vida é amor.
...
... Ela sorriu e desceu com passinhos miúdos e a mão na saia, com aquela lentidão linda e majestosa de mulher, como uma ninféia chinesa.
"Não somos nada."
"Podemos morrer amanhã"
"Não somos nada."
"Você e eu."
Eu acompanho-a educadamente com a lanterna até a rua, onde chamo um táxi branco para levá-la para casa.
Desde tempos imemoriais e adentrando o futuro sem fim, os homens amaram mulheres sem dizer a elas, e o senhor os amou sem dizer, e o vazio não é o vazio porque não há nada para ser esvaziado.
Estás aí, Senhor estrela? - Suave é o chuviscar que perturbou minha calma."
...
Tristessa está me segurando e aos poucos aproxima seu lindo rosto moreno do meu, com um sorriso precioso, e finjo quase deliberadamente ser o americano confuso - Olhe, eu ainda vou salvá-la -
...
E faz menos de um ano que ela estava em pé em meu quarto e disse "Um amigo é melhor do que pesos, um amigo que dá isso para você na cama" quando, de qualquer forma, ela ainda acreditava que conseguiríamos juntar nossos ventres torturados e nos livrar de um pouco de dor _ Agora tarde demais tarde demais.

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Será que dessa vez vai?

Por diversas vezes tentei escrever um livro. Não sei o porque essa empreitada tanto me encanta. Vou tentar novamente. E quem visita esse blog irá compartilhar desta tentativa. Como sempre o nome do livro é algo que é bem complicado. Por hora não pensei no nome mesmo, apenas sintetizei o tema: Em Busca do Eu. Tenho quase certeza que isso vai mudar, e muitas vezes. Porém para não dificultar, sempre irei postar os trechos do livro usando esse título. Bom é isso espero que gostem.

domingo, janeiro 20, 2008

100 livros que toda criança deveria ler.

Sabe, algo que tenho a agradecer ao meu pai foi o hábito de ler para mim desde bem criança antes de dormir. Não se foi isso que me despertou o gosto imenso, a paixão, o vício pela leitura, mas deve ter ajudado. Agora lendo a versão Online do jornal inglês Telegraph me deparei com uma matéria excelente sobre os 100 livros que todas crianças deveriam ter contato. Acho que algo assim deveria ser feito aqui no Brasil também pois nossa realidade é outra e mesmo porque devemos valorizar a ótima literatura brasileira.

Não vou falar dos 100 livros, mesmo porque a lista está aqui.

Vou comentar alguns desses que realmente considero grandes livros:

Eles separam os livros em três sessões por idade, vamos lá.

Crianças mais novas:

Dos gringos me chamou a atenção, Ursinho Puff, mesmo porque não conheço talvez por nome as obras britânicas ali apresentadas, porém a idéia é óbvia: João e Maria, Branca de Neve, Sítio do Pica Pau Amarelo, contos de fada em geral.

Crianças dos 7 aos 12:

O Castelo Animado da Diana Wynne Jones é um ótimo livro, ganhou uma linda versão animada que não me recordo o nome agora, porém creio que é o mesmo diretor de A Viagem de Chihiro.

Tintin: Antes de se tornar o ótimo desenho animado, Tintin era uma série ótima de livros ilustrados.

O Homem de Ferro de Ted Hughes é outro clássico maravilhoso. Lindo mesmo.

Peter Pan de JM Barrie, esse foi um dos meus preferidos. Maravilhoso.

Harry Potter. Sim porque não? Para aprender a ler a criança tem que desenvolver gosto pela história e hábito, e as histórias do bruxo são pra lá de cativantes e empolgantes.

Crônicas de Narmia. Outro universo fantástico que prende a criançada na leitura.

A Bússola Dourada e os outros dois. Grande história, na mesma linha dos anteriores.

Adolescentes:

Alice No País das Maravilhas. Lindo, até hoje vez ou outra pego pra ler novamente.

O Hobbit do Tolkien também tem um universo fantástico. Vale a pena.

E muitos outros. Eu achei que deixaram de fora: O Senhor das Moscas e o Apanhador no Campo de Centeio.

Isto não é um guia propriamente dito para a criança crescer e gostar de ler, e sim recomendações de grandes livros que tem como intuito desenvolver o gosto pela leitura. Essencial em uma sociedade aonde cada vez mais o gosto pela leitura é tachado como chato.

segunda-feira, janeiro 14, 2008

Era Uma Vez O Amor Mas Tive Que Matâ-lo - Efraim Medina Reyes

O que podemos tirar de lição de gente como Kurt Cobain e Sid Vicious, dois malucos que viveram de forma rápida e intensa? O fato de serem dois poetas, não no sentido literário e cheio de tradição, mas de maneira dura e real de serem sobreviventes até o dia em que a pressão foi demais.

Contando sua própria história, de forma violenta, suja e direta, Efraim Medina Reyes despeja toda a dor nesta prosa visceral. Usando o amor como trampolim para mergulhar nesta espiral de auto conhecimento e porque não auto flagelo, temos uma série de contos rápidos que se ligam de forma sutil e transporta o leitor a um estado de espírito que poucos desejam chegar. E mesmo assim não se consegue desgrudar os olhos do livro até que se chegue ao final.

Depois de ler um clássico e um livro de tamanho impacto como O Estrangeiro me vi numa situação difícil, qualquer que fosse o livro que entrasse como próximo da fila estaria injustamente sendo comparado, ao menos em ritmo de leitura e capacidade de prender o leitor ao grande livro do Camus que me destroçara um dia antes. Porém não teve hora melhor para pegar um livro como este, que é um verdadeiro esporro e que fará com que todos se identifiquem, ao menos por um minuto, com Rep (personagem principal da obra).

Para quem gosta do velho Bukowski, ou gostou de livros como Doze, Hell, Apanhador no Campo de Centeio, entre outros que tratam de forma crua e cruel sobre a juventude perdida em uma selva suja de concreto, Reyes é mais do que recomendado.

sexta-feira, janeiro 11, 2008

Albert Camus - O Estrangeiro (The Stranger)

O que pode ser pior do que a total falta de sensibilidade? Pior do que um mergulho em uma alma absolutamente desprovida de sentimentos e razões de existir. Uma arma que poucos conseguem compreender e muito menos conseguem conviver com algo assim. Talvez esta seja a mensagem mais forte que este grande livro de Albert Camus tenha me passado.

Fiquei um tanto quanto conturbado com este livro, pois como uma obra de arte, pode ser a manifestação do não-sentimento? Até então sempre tinha tido a visão limitada e ortodoxa de encarar a arte como reações exteriorizadas de nossos sentimentos, seja na forma da escrita, música, teatro, pintura ou qualquer forma de arte. Arte pra mim era o sentimento registrado de alguma forma. Então este tapa na cara me faz sentir uma criança de volta as fraldas. Arte como mostra do não sentimento.

O primeiro ponto que nos salta aos olhos é o a frieza e a tal falta de sentimentos do protagonista. Chega a nos causar um certo mal estar, e é incrível quando paramos para pensar no feito realizado pelo escritor. Esse mergulho ao mar vazio que é está obra só nos leva a refletir sobre nos mesmos, atingindo um objetivo fundamental que é o questionamento de si mesmo, por meio de uma personagem totalmente relapsa ao que hoje ousamos chamar de vida. Quem está errado? Ele? Nós?

Será que realmente somos apenas animais irracionais e que criaram alguma piada de mal gosto que é achar que temos mais a fazer do que simplesmente vivermos nossas pacatas vidas?

O enredo deste, que talvez esteja entre os livros mais sensacionais que já li, pouco interessa. Um sujeito qualquer, com uma vida qualquer, sujeito a inércia que o leva aos fatos mais diversos. Leia.

quinta-feira, dezembro 27, 2007

Vidas Secas - Graciliano Ramos (1938)

Públicado em 1938, talvez esta seja a maior obra de Graciliano, ou pelo muitos a consideram tal. Com um enredo simples aonde vemos uma família tentando sobreviver ao bravo sertão nordestino, somos carregados a conhecer um pouco mais dessa cultura as vezes tão ignorada neste nosso enorme país. É interessante ver o recurso utilizado pelo autor em narrar sua epopéia em terceira pessoa, uma vez que suas personagens são simples e não teriam a riqueza necessária para se comunicar com o leitor, essa narração cria um elo de introspecção muito maior. Mesmo tendo um protagonista em tese, podemos observar que a história muitas vezes segue uma ordem por vezes aleatória e mesmo a cadela da família recebe a devida atenção.

É interessante ver como os capítulos são independentes e podem ser lidos como contos isolados, o que é verdade, afinal o livro nasceu do conto “Baleia” que foi públicado em um jornal e devido a repercussão gerou em Graciliano a vontade de escrever o romance. Mesmo o linha temporal é bastante relativa, sabemos apenas que os dias e anos passam, agora quantitativamente não temos a menor idéia.

Uma idéia que tenho sobre está obra é que G.R. construíu tudo de forma fragmentada usando de espelho a propría vida dos sertanejos. Nos romances mais tradicionais existe uma evolução dramática que é resultado da interação do homem sobre o mundo. Aqui temos mais uma interação do mundo sobre o homem, que é posto no lugar de vítima.

Fato marcante é que mesmo toda fragmentada e descontínua a obra ainda sim apresenta uma enorme coesão. Talvez fruto da estética bruta e seca da narração, ou de recorrências de certos motivos que vão e voltam através de toda a obra.

Um marco da literatura Brasileira, altíssimo nível.