acordei agora, sujo de suor e dos outros, acordado, com olheiras, angústia no peito. tive um sonho estranho pra cacete. eu não sei o que foi, mas ficou tudo entalado na garganta. e é sempre assim, insônia fodida, quando prego os olhos, os fantasmas. eu já nem sei direito quem eu sou. sei que faço tudo errado. na verdade é até melhor não saber bem quem eu sou. a casa tá vazia, a noite foi horrível, pinguei de bar em bar, joguei bilhar com os vagabundos e sai com a Bela. estava tudo bom, até baixar o demônio no meu corpo. eu via aquela vagabunda se esfregando em mim, e sentia o seu cheiro, a sua cor. eu só queria você o tempo inteiro, a noite inteira, e me via na cama com essa puta. comecei o dia bem do seu lado, mas meu orgulho não me deixou pedir desculpas, acabei longe e arrependido, com essa angústia de cão esmagando a porra da alma. foi como se botasse tudo que amo, tudo que resta de bom em um processador de alimentos. depois do terceiro conhaque, eu disse pra todos que te amava. eu vi a Bela depois da primeira garrafa, ela tinha o seu cheiro, a sua cor. mas faltava algo. não tinha a sua dor. e em mim faltava tudo, não tinha o seu amor. meu coração descarrilhou, meu fígado fisgou, uma puta dor que me acompanha a anos. ela continuava a se esfregar, arrancava minha calça e metia a boca com voracidade, eu só queria dizer pra você que não é o que eu quero. estou sujo da rua e dela, só queria um beijo de boa noite, mesmo que seja dia já. o ser humano pode ser vil, doentio e cruel. acertei dois belos socos na cara de Bela, depois, com medo, esmaguei a cabeça dela contra a parede. desapego total. a única coisa que você me deixou foi o desapego. mesmo sabendo que essa minha doença de te querer faz mal, que não existe a mais ínfima chance de qualquer coisa acontecer novamente, isso não devia ser amor. o amor não pode fazer sangrar, nem matar. agora estou aqui sujo. no auge da paixão, escrevi num guardanapo de boteco que eu não sou eu, sou reflexo do que tu deseja. pelo visto nem isso sou. você me consumiu, jogou fora, e agora eu busco continuar esgotado. o amor romântico tá morto, tudo morreu. eu quase morri, sobrou sei lá o que. eu quero paz, e matar a puta me deu paz. mesmo me deixando sujo. sujo da rua e dos outros. me deixa dormir.
sexta-feira, dezembro 12, 2008
terça-feira, junho 17, 2008
A estrada sempre trás algo além da curva. Numa sucessão quase harmoniosa. Estamos entre os pinheiros, entre o capim queimado e entre o céu de um azul tão forte que chega a causar uma sensação de pequenez. O carro roda suavemente a uns oitenta quilômetros por hora. É um deslize quase silencioso, de acolá não se vê nada, pra cá só e somente o carro corta o vazio. E tudo que eu quero é chegar no além da curva. Com meu coração batendo forte dentro de uma mochila, sei que parar não é uma opção. Por isso deixo os pinheiros para trás. Um casa. Pinheiros, e o por do sol mais lindo que já pude ver. O azul se anegra-se e por demais de capricho ganha pequenas lágrimas brilhantes. E o carro roda.
Roço a mão no cambio e nas coxas roliças de Rita. Ela dorme, o seio obedece os solavancos do carro. E a curva não chega. A ponte atravessa o riacho seco, os galhos quebradiços dão indicio da caatinga que teima em desolar boa parte dos cantos de cá. A única luz artificial em todo sertão, é a brasa de meu cigarro, pendurado em minha boca, derrubando cinzas pela janela, protejo meu fogo criado com o retrovisor. Chuvisca lá na frente, o inferno nunca recebe a dádiva dos deuses, o diluvio sempre está lá a frente. Uma casa velha, parede doida do tempo, uma vaca seca e morta por dentro e uma pequena fogueira exibe o espectro de um ser humano batido e surrado nessa terra nossa que mais é terra de ninguém.
Areia, árido, fumaça e distorção de meu horizonte. A mula morta, já é benfeitora dos urubus, atentos ao deslize dos vivos na corda bamba da dureza das terras de cá. Acolá chove. A flor da alma de Rita dorme, descansa e de extraordinário só me resta suas mãos. Suas mãos doídas me lembram as mãos de lavadeiras. Rústicas e feito couro de jumento mastigador de relincho. O asfalto, nunca molhado, apenas uma chapa quente que avisa os perigos de parar por aqui, lembram a mão de Rita. E a curva continua além do campo de margarida que ela cativa em seus sonhos.
Queria uma foice, cortaria o grande firmamento e buscaria o verde que foi roubado dessa terra esquecida. Luminoso, um brejo seria melhor, dois barracos, o sexo de Rita pulsa e é tão convidativo como o mentiroso oásis que vislumbro por de trás do horizonte.
A violeta murcha ainda decora o cabelo desconjurado da pequena. Bom dia, o sol raia, a gasolina não assusta e a curva não chega. Mas não deve tardar. O asfalto piora, bom sinal, mais gente passa por aqui. Almas a caminho da vida constante do vilarejo ao norte. Certo medo agudo de chegar lá e a curva não estar. O sol a pinho volta a maltratar o capim marrom que brota esparsamente.
Aqui e a li surgem casas humildes, sertanejas e de bom coração. Telhado de palha e taipa, isso quando o afortunado tem chance de botar as mãos em um pouco de argila. Quero dizer, isso quando como a dos pobres, pois são rebocadas toscamente, cercadas de alpendres e com as paredes descascando e mostrando sua nudez que ninguém quer ver. Pois quando o pobre sujeito deixa de lado o lado pobre, a casa ganha telhas e por vezes mais de uma construção dentro de sua propriedade.
Rita dorme, se fosse dentro de uma dessas palhoças feita de babaçu, não passaria de uma garota cansada, entregue a um longo sono. Pra lá surge umas casinholas feitas de carnaúba. Só não vi nada feito de pau-a-pique, a madeira aqui é seca, a muito Deus deixou de dar natureza para esse pedaço de cidade perdida.
A casa além da curva é de telhas feitas de palmas de coqueiro. E de tamanha esperteza que chega a me assustar, o resto do babaçu serve de material pra porta e janela, além de fazer todo o cercado. A curva agora é aqui, e o senhor rasgado de sol e firme feito rocha me espera na porta. Pela fresta da porta, num vislumbre pra lá de sobrenatural, vejo a velha, sábia e corajosa, sobrevivente de um fim dos tempos que já foi e ainda vem e vai por essas terras. Acima de seu ombro esquerdo um par de morcegos se penduram nas sustentações do telhado rudimentar. Dia. Indico com a cabeça a adorável Rita que dorme, dorme para não mais acordar.
O cangaceiro não diz uma palavra, com um aceno dois moleques desproporcionalmente grandes no tronco surgem por detrás da casa e se aproximam. A mãe, a velha, a paridora do sertão desaba no pranto, levam Rita pra dentro, o velho não mexe um músculo. O carro me convida ao seu banco já moldado a minha vontade, e a curva volta a estar acolá de longe.
segunda-feira, junho 09, 2008
Era tempo de festas e tempo de rei
Era tempo de festa. Não festa marcada e doutrinada como hoje. Era tempo de festa. Uma frase completa por si só. Verão, calor, longas férias regada de brincadeiras. Pique-esconde, polícia e ladrão, futebol, piscina, video-game e apenas o gozar da diversão sem compromisso. Eu morava num prédio de vinte andares, com dois apartamentos por andar, apesar de não parecer tanto hoje em dia, eu achava o máximo, um universo inteiro. Tinha os irmãos coreanos, tinha o vizinho gordo, a garota da cobertura, os irmãos do décimo primeiro andar, o neto do zelador, o vizinho de cima anos mais novo e um universo inteiro para ser explorado dia após dia.
Naquele verão em especial, o pai do moleque do vinte dois, então síndico da época resolveu organizar um campeonato de ping pong no prédio, em parte para comemorar a mesa novinha que havíamos ganho. Eu, como sou até hoje, era péssimo nesse esporte. Mas de não conseguir mais do que duas ou três seqüências de bater e rebater a bolinha. Fui eliminado na primeira rodada numa lavada épica. Nem por isso deixei o clima de festa baixar. Era tempo em que eu era rei.
O campeonato tinha gente que eu nunca tinha é visto por lá. Em especial uma guria morena, devia ter a minha altura, e olha que sempre fui um cara de altura avantajada. Nunca havia visto nem sequer sombra daquela menina. Ela tinha corpo esbelto, não era o corpo de menina que as outras tinham, era um corpo que esbanjava feminilidade característica de meninas virando garotas. A inocência do rabo de cavalo que balançava de lá pra cá existia. O olhar jovial, em busca de novidades, o olhar que brilha tanto nas crianças estava lá. Mas o corpo, o andar, os gestos redondos, a boca sempre umedecida e o perfume que deixava no ar era alto totalmente inédito, eu nunca havia vivenciado uma mulher que não fosse ou a irmã mais velha e mais chata de algum amigo, a mãe, a tia ou mesmo uma menina da minha idade que passava com total desinteresse.
Tratei de me apresentar, mais por uma inércia de um movimento desconhecido. Lamentei o fato que ambos havíamos saído na primeira rodada do campeonato, e perguntei de onde ela havia surgido. Ela sorria, e se mostrava extremamente animada e receptiva ao meu flerte. Que na época não passavam de uma curiosidade aliada ao fato que meus amigos, a minha turma, o meu circulo de proteção ainda estava entretido nas partidas de ping pong.
Jackeline, era esse seu nome, Jackie, logo tratou de me adiantar que preferia ser chamada pelo apelido. Soube que estava no apartamento oitenta e um e que havia se mudado de Santa Catarina para São Paulo a poucos meses. Mal conhecia um passo fora de seu novo lar e que morava agora com sua tia, que depois causou um alvoroço no prédio pois além de ser modelo, a tia da garota saiu na playboy, num daqueles pequenos ensaios que saem no final da revista.
Logo passei a ser o foco da turma. Eu, justo o pior jogador de ping pong era o cara que flertava com sobrinha da gostosona da playboy. Quem diria? A inveja infantil era fruto da minha glória. Adorava repassar cada detalhe para meus amigos que já pouco se importavam no campeonato que havia terminado com nem me lembro quem como campeão. No dia seguinte, alimentado pelo ego desproporcional que havia crescido, liguei no apartamento oitenta e um e logo fui atendido pela doce voz de Jackie, ela me convidou para subir em seu apartamento.
O até então desconhecido flerte de fato funcionava, eu que não sabia de nada, por mim subiria, assistiríamos TV ou algo do gênero. Pois lá estava eu, de joelho ralado, shorts velho e a camiseta do meu time na porta dela. Jackie aparece vestindo uma sainha curta, uma uma camiseta rosa e o cabelo preso no famigerado rabo de cavalo, estava impecávelmente arrumada, desde seus lábios umedecidos até sua pele que parecia saída de um comercial de produtos de beleza. Foi um baque. Não sabia o que estava acontecendo, meus amigos atônitos observavam escondidos da escada de serviço enquanto Jackie me puxava pela mão casa a dentro.
Tratou de me mostrar a casa toda, explicar que a tia dela não estava e para meu total desespero me mostrou a playboy da tia. Aquilo já passara dos limites, eu era um garoto, não era homem ainda, não sabia o que fazer, me constrangia de ver playboy na frente de um cara que não fosse da turma, na frente de uma garota me parecia uma blasfêmia. Visitamos a sala da casa, ela me falava que assistia TV ou conversava com a tia ali, e eu suava bicas pela nuca, a cozinha, aonde aceitei água e chocolate, num instinto claro de postergar o momento de conhecer o quarto dela, meu coração batia feito bumbo de bateria, com passos curtos, entramos no seu quarto, ela mostrou sua colação de papéis de carta e seus bichos de pelúcia depois me convidou para sentar em sua cama. Isso estava errado! Meus amigos não me convidavam pra sentar em suas camas. Sentei e ela sentou-se do meu lado e perguntou o que eu estava achando da casa.
“Tem bastante espaço livre né?”
Foi a primeira coisa que me veio a cabeça, afinal, o apartamento não era tão pequeno e lá só moravam a Jackie e sua tia. Suor, mãos geladas, corpo tenso e uma mordida constante no lábio inferior denunciavam minha tensão.
Ela vai pegar na minha mão em qualquer momento, vai me beijar, sei que vai, esse perfume doce de maçã vai ficar na minha roupa, o gosto de seu batom de cereja na minha boca, seu corpo quente esquentando meu corpo trêmulo e sem a menor idéia de como lidar com tudo aquilo e a história de tempos de reis aonde a princesa conquista o cavaleiro.
Não lembro se tudo foi como eu previ naqueles cinco micro segundos antes do beijo, sei que ela pegou na minha mão, o beijo foi desastroso, eu não sabia direito o que estava fazendo, parei de súbito e ela perguntou o que foi, eu fingi uma dor no joelho e depois me entreguei ao primeiro beijo, o inesperado e inesquecível primeiro beijo.
Mais do que nunca era tempo de festas e tempo de rei. Nos próximos dias eu fui rei, fui o desbravador de mares ainda desconhecidos por essa trupe. Dos meus amigos, poucos mantenho contato, da Jackie nem mantive contato a curto prazo, ela acabou por voltar para Santa Catarina logo em seguida. Mas foram bons tempos de rei.
sexta-feira, maio 30, 2008
Velvet Underground - Part 1
Domingo, é de manhã e o sol já passou da minha barriga. É assim que vejo mais ou menos que horas devem ser. Quando o sol passa do meio dia ele reflete numa janela do arranha céu do outro do lado do Central Park e começa a invadir meu quarto. Quando chega por volta das 3 da tarde está no ângulo perfeito para esquentar minha barriga que a esse momento se retorce de fome e desconforto com o exagero na bebida. Se a bebedeira foi das fortes, como a da noite anterior foi, ainda não me incomodo. É por volta das quatro e meia que o sol a pino bate no meu rosto. Mas que raios? Eu preciso de uma cortina.
Digo que é de manhã porque a passagem das horas se dá nossa cabeça, eu acordo de manhã, almoço e passo para tarde só depois da janta e normalmente quando estou pelas ruas dessa cidade cheia de ratos que estou efetivamente na noite, aí sim, a noite de Nova Iorque, é meu território, conheço cada beco, cada esquina, cada clube e cada puta dessa cidade. Quando se tem grana, se tem tudo, tudo tem um preço é o que o meu velho costumava falar quando brincávamos com os constantes atrasos em festas natalinas ou aniversários. O velho safado sempre aparecia com o melhor presente, um computador, um carro, uma viagem pra velha Europa ou qualquer merda do gênero. E compra mesmo, aposto que o velho trai minha mãe com toda e qualquer puta, deve cheirar tubos de pó e com isso compra a juventude eterna. O palhaço vive como se fosse mais novo que eu.
Mas se fosse pra falar dos velhos eu me dava um tiro na cabeça, sei que esse sol, pilhado a mil na minha cara deve me arrancar fora do quarto e me por a fazer algo útil. Quero uma cortina. Tenho iPods, tenho notebook, toda a coca que meu nariz pode agüentar e um carro fudido na garagem. Por que não tenho uma cortina? Essa pergunta sempre me martelou a cabeça, porém nunca com força suficiente para que tomasse alguma providencia.
Sei que ontem tive que esperar umas três horas pelo cara que me arranja as drogas, e sei que perdido num beco sujo, sujeito a qualquer merda de maníaco afim de me enfiar uma faca, eu pensava justamente nessa merda de cortina. Inclusive deixei algumas gramas com ele e salvei alguns trocados furados na disposição de hoje comprar uma cortina pro quarto. Me arrastei feito um zumbi pro guarda roupas, vesti um jeans e uma camiseta qualquer, antes de tudo passei no banheiro e dei uma checada na cara, estava um lixo. Iria passar pela cozinha, pegar algo pra comer e botar o pé na rua, tentar achar uma cortina em pleno domingo de tarde.
Antes de sair, apanhei uma banana, é engraçado, quase nunca temos bananas em casa, eu gosto, gosto mesmo de bananas e tomei o elevador pra alcançar a rua aonde sai meio sem rumo esperando que alguma loja de cortinas brotasse na minha frente. Do outro da rua, vestida inteira de preto passava uma mulher de mais de um metro e oitenta de altura que na hora me fez lembrar, devia uma grana pra dona do Porão de Veludo, no qual eu gostava de ir sarrar umas putas, beber e cheirar sem me preocupar.
Apalpei o bolso, verifiquei que ainda tinha alguns cigarros no bolso da calça acendi um e resolvi passar antes no clube, pagaria minha conta, beberia talvez um trago bom e depois buscaria minha cortina. Como seria essa cortina? Pensei bastante enquanto descia a rua. Nunca havia pensado na cortina em si, apenas na necessidade terrível que eu sentia de possuir uma, o sol sempre me despertava de uma forma horrível.
quarta-feira, abril 30, 2008
11 - Reservations
Como será que eu poderia te convencer que nem eu gosto de mim mesmo? Eu sempre estive distante, sempre contei mentiras pra manter esse amor. Eu fui cercado, abafado por escolhas tão dificies de serem tomadas, eu tentei forjar um sentimento que não é fácil de falsificar. Nada disso foi real o suficiente para te manter feliz, acho.
Eu queria ter alguma espécie de reserva, uma reserva pra tantas coisas que não cheguei a viver. Uma reserva pra qualquer coisa, mas não uma reserva pra ti querida. É hilário, me faz contrair o peito em dor contida, o sangue correndo do buraco sobre o meu pulmão, quando rio é mais engraçado ainda ver o sangue reagir ao meu corpo debilitado. Eu sei que tudo que tu queria era ouvir isso que estou admitindo. Eu queria ao menos uma vez chegar nessa verdade que prova ser bonito mentir. Eu tenho uma reserva, uma reserva pra outro lugar, pra outra vida, pra outro tempo... não é uma reserva pra ti francesinha.
10 - Poor Places
Agora não vejo diferença alguma, são só detalhes,
A voz do meu pai em algum sonho acordado,
Marinheiros que teimam em deixar o porto toda manhã,
Eles navegam para salas com ar condicionado,
O vegetariano comendo em prato industrial.
Vejo-a todos os dias recebendo carícias dele. Aquele baterista de Metal, aquele sujeito de maxilar quebrado. Ou ao menos eu desejava que o maxilar dele tivesse sido destroçado por um cruzado de direita. Mas nem isso posso, meu peito está enfaixado com bandagens, não tenho nem forças de levantar. As minhas garras até caíram. E como eu queria te ver hoje a noite minha francesinha.
Mesmo que meu bafo seja do Uísque,
bebida que o seu guitarrista ama tanto,
ou o baterista te levou ao glamour do vinho?
Não percebe que esse cara tira tudo de livros?
Frases feitas, gramática assassinada! Mas tudo bem,
Você nem lê mais, que diferença faz?
A mas eu queria ter acertado um cruzado no maxilar desse cara, teria quebrado a face dele em cinco grandes pedaços, aí sim ele viria quem sou eu, mas essa bandagem me aperta tanto, puta que pariu, como eu queria te ver hoje a noite francesinha.
Quero fumar, fumar todos os cigarros do mundo, mesmo que tenha um qualquer me amando no quintal de casa, minha voz sobe os muros e busca a fumaça. Quero amor, amor que é o quero-porque-quero em vida.
Meu maxilar está quebrado, meu coração em pedaços no gelo do caipirinha que você divide com ele, minhas garras destruídos. E que vá para o inferno toda essa alegoria que chamamos de vida, eu só queria te ver mais uma vez. Faz calor nesses pedaços mais pobres da psique humana. E eu não vou me arriscar a sair daqui.
09 - Pot Kettle Black
E o que me restou? Merda nenhuma, Tive que esvaziar meus bolsos, me livrar de minha varinha mágica. E agora tudo que me restou são as letras sem a música. A minha saúde me deixou, mesmo esse mundo aí fora é assustador. Mal saio do meu apartamento. Até as meias não troco mais, pois lembro que tu gostava desse par velho, e se um dia tu voltar na da mais justo de estar usando os mesmos pares de quando tu me deixo, seria uma forma de congelar o tempo. Estatizar o natural, evitar o imutável de mudar. Porém cada dia mais parece que você será uma corda que eu não vou tocar mais. Acho que talvez nem tenha tocado todas as suas cordas. Mesmo que agora seja óbvia a situação em que me encontro. Porém mais obvio é você mesma, tu se saiu exatamente como eu previa. E agora eu me encontro amarrado nesse nó, sufocado. Mas juro que pretendo não ser pego. Eu ainda tenho esperança de escutar a velha música, a velha música tocada com o instrumento mais puro que conheço. A música que vinha de meu coração, esse que teve todas suas cordas estouradas. Minha única alegria é saber que esse seu trem, é preguiçoso e demora a partir, e pra qualquer lugar que tu acabe indo, eu sei que ainda estará ao meu alcance. Eu sei, não acuse para não seres acusado. Sei de que sou o sujo falando do mal lavado. Mas foda-se você era minha.
08 - I'm The Man Who Loves You
E novamente estava jogado a esse pântano que é a vida. Sentia o fedor da injustiça, o fedor do preto ou branco. Eu bem que queria enxergar o azul, o rosa e o lilás, mas tudo que me chega é branco ou preto. Isso pode ser porra nenhuma pra vocês, mas é uma sutileza de guindaste perder o colorido da vida ao ver que ela foi apenas uma passagem passada na minha vida. E é por isso que escrevo essa carta pra ti.
Pois tu sabe que se eu pudesse eu faria. Nós sentaríamos na nossa sala e você entenderia tudo. Eu sou o homem que te amo. Mas agora não, agora tudo que me restou é essa mar robotizado. Uma grande engrenagem por debaixo do mar que faz as ondas irem e virem. Volte pra casa querida bonequinha de luxo. Pois tu sabe que se eu pudesse eu faria. Nós sentaríamos na nossa sala e você entenderia tudo. Eu sou o homem que te amo.
07 - Heavy Metal Drummer
Eu até sentia uma certa falta dessas bandas de Heavy Metal, quando eu era um pentelho dizia que queria ser guitarrista de Metal quando crescesse. Cresci e toco numa banda de Pop como se tivesse sido criado pela minha avó. Sabe, aquelas crianças que crescem com a vó, nunca se machucaram, sempre tiveram tudo que queria. Minha banda parecia isso, não tinha a atitude e a força de uma banda Metal.
Eu realmente sinto muita falta da época que fazíamos cover de Kiss e tudo era bonito. Sinto falta do tocar por tocar. Da banda quero-porque-quero em vida. Mais acima de tudo isso sinto falta Dela. Justamente Dela. Que se apaixonou por um desses bateristas de Heavy Metal.
terça-feira, abril 29, 2008
6 - Ashes of American Flags
Eu queria realmente entender o que foi daquela época, gastávamos quatro reais numa coca cola diet e um maço de cigarros, os poetas impregnavam nossa vida, mas acho que nunca demos a menor bola de verdade. Não lembro de termos conversas de verdade, lembro de passarmos o tempo, sentados no mesmo parque, eu sabia que apenas morreria se tivesse que renascer e enfrentar a possibilidade de não chegar nesses momentos. Todas as mentiras, todas elas, meu imaginário eram apenas desejos disfarçados. E agora tudo que eu quero é uma boa vida ao lado dela. Um pouco de vento fresco, um céu bonito, sem muito pensar como será o amanhã.
Me divertia com a sua vontade de ser tudo, isso até me contagiava, alugamos o apartamento no Copan, era um cubo de 40 metros quadrado, mal cabia nossas coisas, mas era nossas mentiras realizadas. Construímos o sonho de vida, eu, uma mulher, uma casa, nosso cantinho, viajamos vez ou outra e aproveitávamos nosso sonho americano.
Eu era um primeiro a saldar, o primeiro a me curvar perante a essas cinzas que são a bandeira americana e o seu sonho jovial de vida. Vivia um sonho, vivia uma vida maravilhosa ao lado dela. Até uma banda, agora eu tinha, comprei uma Telecaster usada e tocava com os caras no fim de semana, trabalhada durante a semana num escritório como faz tudo. Ia nos bancos, trocava lâmpada e por aí vai. Era uma vida de deus. Eu realmente me curvava diante esse sonho americano. Isso enquanto todas as folhas que iam caindo anunciando o outono enchiam minhas sacolas de compras.
5 - Jesus, Etc...
Cheguei no parque, disposto a guerrear, e como um milagre, água virara vinho. Lá estava ela, deitada no seu costumeiro local, lendo alguma besteira de auto ajuda. Não chore seu covarde. Olha... ela precisa de ajuda, ela pode confiar em mim. Eu sou o cara pra oferecer ajuda, tenho tudo que ela precisa. Leio as mesmas coisas, sou um cara cool, posso até ser metido a francês se assim ela desejar. Eu acho que vou ficar por aqui, me deixar ser percebido por ela. Imagino eu chegando... tocando em seu ombro, com um sorriso nossa cumplicidade seria máxima. Seria como o acreditar que cada estrela é uma aurora.
Me aproximei e deitei com o pretexto de tomar sol, minha boca tremia, e a voz escapava, cantarolando canções tristes. cada nota devia estar batendo forte no estômago dela, sim, eu, o grande cantor devia estar fazendo algum efeito nela, essa minha melodia azeda devia estar jogando ela em órbita. Em breve ela estaria aos prantos. Mas calma minha francesinha, você pode confiar em mim, você pode vir quando bem entender, eu estarei por aí. Sempre tem uma aurora pra me referenciar.
Ela falou comigo! Certo como dois e dois são cinco. A voz dela era como vinho, era como um trago de cigarro, e como sempre meu bolso estava cheio dos últimos cigarros que eu poderia conseguir, fui eu quem fui a órbita. Ela disse assim, disse que gostava muito de Bowie e perguntou se eu, sim eu mesmo, queria ir assistir o céu com ela. Num momento de felicidade suprema eu olhei pro parque, todos estavam queimando. E eu estava realizado.
4 - War On War
Não vou me deixar subjugado por esse demônio que habita meu abismo interior. Se ele quer guerra, terá guerra! Apaguei todas as fotos do meu computador, passado é passado! Deixei a vitrola de lado e estava pronto para encarar o mundo como devia ser. Até mesmo minhas estrelas cadentes haviam deixado de cair, pois uma guerra estava se desenrolando lá fora.
E você pequena metida a francesa, você quem vai perder. Você tem que aprender a perder queridinha, isso mesmo aprender a morrer. Vou jogar os fones de ouvido na orelha e sair por ai, vou até o parque, se você estiver lá, vai ouvir umas boas verdades. Deixando o Miles voar pela minha cabeça saio em passos firmes. Mexeste com a pessoa errada, agora vai conhecer um homem de verdade impondo seus direitos. Nenhuma mulher pode raptar o coração de um cara assim, o coração, o desejo, a vida, ela tinha capturado tudo. E agora com isso tudo, havia declarado guerra contra minha pessoa. Guerra só se responde com guerra. Você não é minha poesia, você talvez possa ser um demônio, nada mais do que isso.
Você vai aprender a perder pequena metida a francesa, você vai aprender a morrer nem que seja minha última atitude nesta vida.
3 - Radio Cure
Se anime, vamos seu idiota, se anime, ela nunca sequer existiu de verdade. Deve existir algo extremamente doentio e errado comigo. Tudo que consigo ver são estrelas cadentes, minha cabeça está cheia delas. E todas me caem sobre o mesmo parque, todas carregando seu rosto lindo, suas mãos delicadas segurando sua literatura salvadora. E cada estrela que explode na minha cabeça me joga beijos, abraços, nuvens de névoa, ombros roçando um no outro.
Vamos se anime! Não vai ficar o dia todo agora trancado no quarto, ouvindo o mesmo disco de novo e de novo. Com certeza tem alguma coisa errada comigo. Acho que estou buscando a cura nessa velha vitrola. Em melodias cirúrgicas dos únicos que realmente me entendem. Se fosse um pouco mais simples, mas não, não é! Existe apenas essa banda que me entende, e a isolação é tudo que me resta.
Mesmo porque todo esse conto de fadas não faz o menor sentido. Essa distância nunca enfrentada não é capaz de fazer o amor algo tangível. Mas por favor, seu merda, se anime! Eu tenho certeza que posso me animar. Mesmo tendo algo errado comigo. Mesmo com essas estrelas explodindo no meu cérebro. Esses beijos, abraços, essa nuvem de paz que nunca existiu.
Vou dar um jeito de me animar... mesmo que essa distância metafísica entre eu e ela torne o amor algo totalmente incompreensível.
2 - Kamera
Antes de conhece-la eu era inocente, um garoto bobo com minha câmera digital. Meu pai sempre antenado nas tecnologias, logo tratou de arrumar um aniversário, natal ou sabe-se lá o que para me presentear com uma novíssima tecnologia de tirar fotos. Na real, eu gostei muito do presente, eu sempre fui um cara meio mentiroso, não, mentiroso não, estava mais para um cara imaginativo. Tinha meu próprio mundinho e via fantasia em tudo. Não era raro me perder nos parques públicos em meio a tantas epifanias acontecendo.
Foi assim, desse jeito que meio sem querer comecei a observar essa garota, chegava todo dia no parque, sempre trazia algum livro, deitava-se na grama e mergulhava numa leitura concentrada, virou meio que minha obsessão, tirava fotos dela sempre buscando um ângulo que me permitisse dar um zoom suficiente para capturar a capa do livro também. Acho que nisso se foram seis meses de convivência individual. Ela lá e eu aqui. Minha imaginação jogava a mil com possibilidades de um dia conhecer essa garota que lia de Byron à Clarice. Na época, nomes obscuros pra um jovem como eu. Na volta pra casa eu sempre dava um jeito de passar no sebo da Av. São Luis e comprar algo próximo do que minha musa estava lendo.
E nisso sempre recebia telefones de casa, eu perdido pelas ruas, meus pais preocupados. Isso durou até o dia em que ela se parou de ir ao parque, depois de uma, duas e três semanas sem compartilhar de sua leitura arrebentei minha câmera num acesso de fúria.
segunda-feira, abril 28, 2008
1 - I Am The Man Who Loves You
Esse despertador toca todos os dias no mesmo horário, como uma máquina temporal, me traz de volta ao raiar do dia. Se ao menos pudesse sair a luz do dia sem peso na consciência, não teria que evitar qualquer lugar movimentado. Toda noite tenho bebido tanto, litros, um aquário por noite. E aí me vem essa cidade piscando, flertando com o perigo o tempo todo, tudo que me resta é mesmo ficar trancado aqui.
Se sou louco? Duvido que possa responder com a clareza necessária de um lúcido. Eu sei que ela, ainda vai ter o coração destroçado. Não sei como pude deixar ela sair andando assim, a Deus dará. Já cheguei a sanidade de propor uma trégua nessa batalha, pra que nos degolarmos tanto? Podíamos voltar a apenas ser dois estranhos, dois estranhos que ao cruzar o olhar vão logo trepar. E isso não é pra ser piada, nem referência a filmes, isso é pra ser minha vida.
Eu ainda imaginei que não iria doer. Esse seu olhar, grandes amêndoas sonhadoras, me pegavam de jeito, me deixavam lá preso, feito criança de frente árvore de natal. Mas eu e me vicio de beber, iria acabar com tudo. Você estava certa desde o começo. Eu não devia ter dito boa noite. Agora você não passa de uma peça de domino, prestes a cair e derrubar todo o resto, se é que não caiu. E não adianta me trazer curativos, eu nem sequer acredito em quedas. Que raios me passou pela cabeça quando eu falei olá?
Eu tonto, achando que ia te ter nos braços pra sempre. Você sempre foi constante, sempre me amou. Até que eu cai no sono, e a cidade, a vida não dorme. Sim, isso tudo é uma tentativa de quebrar seu coração. Uma porra de tentativa de te mostrar que tem sangue no meu peito, tudo que me resta é o maldito desejo de mastigar seu coração com manteiga no café da manhã. Não que seja fácil, seria uma mentira falar que é. Pois mesmo em copos descartáveis eu vou continuar bebendo. Eu sou o homem que te ama. E por que raios eu deixei você partir?
segunda-feira, abril 07, 2008
Não me canso de louvar esta fortuna.
Quando viajava de carro, pra lá e pra cá, em busca de alguma dose de qualquer coisa pra ferver um pouco o sangue, eu sentia algo. Sentia alguma coisa, vinda de um processo de ansiedade que brotava logo de manhã e explodia nas noites claras demais pra pegar o olho. Era uma espécie de enjôo. A Radial Leste deixava sempre teimava deixar para trás um mundo de segurança, uma redoma de vidro que me protegia de um passado obscuro.
Sempre que o carro desliza por essas direções, o percurso transcorria sem problemas, sem absolutamente nada fora do comum. As luzes vermelhas, que borravam a velha avenida feito sangue, só serviam de decorativo para o véu escuro que caia sobre a cidade e permitia que toda a corja de rejeitados saíssem de suas tocas. Um flerte com os edifícios iluminados, diversas janelas emanando luzes amareladas, azuladas e outros tons diversos. Isso trazia algum sentimento, talvez de condolência, se cada luz acesa representa uma alma perdida, estraçalhada por uma vida cruel, uma alma que não consegue simplesmente pregar os olhos, que a dor lateja em seu coração e a solidão arranca desejos soturnos de dar cabo a própria vida, se cada luz representar um quarto disso tudo, talvez sua própria perdição fosse menor.
Lembrou-se daquela noite pré natal que se arrastara até a Paulista e viu um mar de possibilidades se abrir em sua frente. Devia sorrir sozinho, feito bobo, dentro daquele pequeno carro preto que seguia a manada de ruminantes rumo ao circo pós moderno. Circo armado para distrair nossa atenção de uma situação deplorável, um declínio a la Roma para um país que sempre almejou o topo, mas nunca moveu um dedo pra que algo melhorasse.
Sua cabeça não divagava sobre esses problemas, apenas refletia como podia ser afortunado por ser presenteado com maravilhosa mulher. Um relacionamento que parecia um choque entre duas carretas desgovernadas, que milagrosamente não explodiram, e sim juntas seguiram o mesmo rumo. Algo cheio de estrondo e fascínio.
Mal percebeu quando foi cuspido para fora do carro, caminhou pelo barro e pelo mato, com um sorriso lacônico nos lábios. Como podia em meio a prédios com mais décadas nas costas, um terreno aberto, ao céu poluído da cidade, estar assim, cheio de mato, barro e com cheiro de campo. Ao pisar na calçada avistou ela, ao lado do poste, cerveja em mãos, vestia uma calça que sempre despertava um tesão incrível. Se aproximou, firmando cada passo bem, sabia que seria uma noite magnífica. Com uma pequena mordida nos lábios tomou a amada nos braços e sentiu o tempo regredir, sentiu aquele alivio que é flutuar em um balão de ar. Sentiu toda aquela paz que a dose dessa droga lhe entregava.
segunda-feira, fevereiro 18, 2008
Paixão Virtual X Tolerância da Realidade
Será que existe alguma possibilidade concreta de uma idéia maluca como essas dar certo? Digo, ela recém o conheceu pela Internet, e ele vivia em um estado vizinho. Gostar de Rolling Stones e ler Salinger não deveria ser o bastante para tamanha identificação.
Esse mundo virtual cria ilusões fantasmagóricas. Digo, ele usava um apelido que fazia referências ao Dylan, vez ou outra rabiscava alguns versos de porta de banheiro em seu blog e deixava sua lista de músicas, escutadas para todo mundo ver no last.fm. Com essa construção de bits e bytes o príncipe encantando vinha cavalgando em gigabytes de banda larga.
Eles travavam algumas deliciosas conversas noite a dentro. Várias na real. Era o ponto máximo do efêmero. Ela se tocava noite após noite fantasiando transas banhadas de conhaque barato e com Ramones nos falantes do notebook. Levava seus dedos bem fundo na doce ilusão que sua alma perfeita iria realizar todos seus mais íntimos desejos. Ela olhava aquela foto que ilustrava seu homem e já se dava por inteira dele, desejava sua boca. Fitava a boca como um animal prestes a dar o bote.
Já tinha feito algumas tentativas de rascunho no qual se entregava para seu amante digital e lhe oferecia ir para a cidade dele e morarem juntos, criarem uma vida, serem felizes como numa utopia hippie falida. Uma pose bancada de anos que se foram, que morreram, e que traziam um glamour mágico ao serem plagiados sem qualquer ideal real.
A cena era clara em sua cabeça, depois da resposta empolgada dele. Ela pegaria um avião, e seria recepcionada no aeroporto. Eles se aproximariam, ela iria tentar prolongar aquele segundo que antecede o beijo o máximo possível, para se lembrar e guardar consigo o momento que entraria numa nova fase de sua vida. Aquele segundo quente, duradouro, difícil de encarar, o frio na espinha. Músculos a mil. E então faria de tudo para segurar pelo maior tempo seu aguardado beijo de boas vindas. Ali já sentiria o calor subindo suas pernas, a falta de força em se sustentar, a vontade louca de ter aquele homem consigo para sempre.
Aquela noite, iria falar tudo para ele. Iria propor o beijo, iria propor a transa, iria se tocar como nunca tivera se tocado. Seria o momento de sua vida. A sua boca rósea estava umedecida e desejava secretamente aquele beijo improvável. O mais desagradável da improbabilidade é justamente a falta total de chão e gravidade aonde se apoiar. Nem um computador calcularia as chances daquilo de dar certo.
Sua prima passava o dia todo lhe insistindo para irem em alguma balada, para se divertir, descontrair. A prima não dizia, mas era obvio que sua solidão, e sua total falta de sociabilidade, quando se trancafiava em seu quarto e passava horas apenas se jogando naquele flutuante mundo da virtualidade, era mais do que óbvio que as pessoas já se preocupavam quando ela poderia voltar ao planeta terra.
Seus mamilos passaram a tarde eriçados e prontos com a possibilidade de finalmente saberem que a língua quente dele iria satisfaze-los de prazer. Mesmo que de forma contida passara o dia mais sorridente e tentou por diversas vezes ignorar sua prima, e um pingo de humanidade e auto piedade que lhe restavam.
Na hora combinada, ela ligou o computador, e esperava a Internet conectar. Desesperada consigo mesma, não pensou duas vezes, deixou com que o mensageiro conecta-se sozinho. A essa altura já estava escada abaixo para ir se encontrar com sua prima. Naquela noite, apenas o fantasma de uma possibilidade ferida iria chegar aos lábios de um cara casado e totalmente despretensioso de levar algo a sério com aquela garota engraçadinha. O doce território da fantasia iria dormir sem seu casal favorito. Foi a ultima vez que ela tentou contato com ele.
sexta-feira, fevereiro 08, 2008
Homem Diante do Abismo.
Eu era jovem, bonito e perigoso. Vivia dançando com o perigo e o meu Fusca vermelho, era um carro de respeito, além de ser última novidade em termos de automóveis lá em Cerqueira César, me levava para todos os cantos, nunca me via parado ou muito menos voltando, sempre em frente dizia a todos. Entretanto o que reservei aqui é certa vez que passava as férias em Sorocaba, quando me refiro a férias, digo férias mesmo, tiradas na empresa que vez ou outra eu resolvia fazer um bico. Pois todos achavam que eu era um libertino, que vivia no bem bom, mas é diferente viver no bem bom com um cara que lhe paga o salário nos dias de bom humor, enquanto lhe olha torto e roga pragas. Aqueles dias sim, eram férias merecidas: a base de muito suor, mulher e bebida.
Pois então, estava em Sorocaba, em um pequeno hotel próximo ao centro da cidade. Era desses hotéis construídos em antigos casarões, lar outrora de famílias importantes que hoje não passam de fantasmas de seus antepassados. Tinha um ar imponente ainda, ostentava antigas peças de decoração e aquele pé direito altíssimo contribuía com a atmosfera local. Tinha uma bela piscina nos fundos, com um jardim encantador, diversas musas de biquíni desfilavam seus traseiros pra lá e pra cá durante a manhã toda. Eu passava boa parte da manhã no quarto, trancado, a janela meio aberta, observando a área de lazer, o sol me dava náuseas, uma constante sensação de estar em alto mar, sozinho e sem ninguém para me resgatar. Apenas depois do almoço conseguia firmar meus joelhos e fincar firmemente meus pés no chão para dar um passeio.
As refeições por sinal era um dos poucos momentos que me socializava um pouco, logo conheci um grupo de amigos que passava as férias por lá, um casal austríaco e uma família do sul do país. Como o refeitório era em um salão bem grande e possuía enormes mesas, era impossível não trocar um ou dois minutos de conversa fiada com seus vizinhos, e assim que me chamaram para ir na inauguração do mais novo clube noturno da cidade.
Eu sempre tive um certo fogo pelas diversões noturnas, ainda mais estando sozinho, solteiro e totalmente animado em pegar uma caipirinha fogosa e que muito possivelmente nunca mais a veria na vida. Porém com o arrastar quase parado do dia, me sentia inclinado a não ir a esta noitada. Algo me forçava contra meus princípios primais e me dizia para escutar a voz da razão. Mas que razão? Não existia nenhuma premissa obvia que me pudesse fazer desistir da idéia de sair e me acabar com os prazeres mundanos. O dilema perdurou por toda a tarde e me escorreu pelo corpo enquanto tomava meu banho momentos antes de sair. E foi justamente quando saí do banho que me enfiei na mais velha camiseta e voltei pra cama decido a não sair aquela noite de maneira alguma.
Foi uma noite longa e sinuosa. Nas linhas que Guimarães Rosa adoraria descrever, me vi ensopado de suor. Sentia que o calor do mundo desabava em minhas têmporas. Por dentro sentia me queimando como se estivesse no próprio inferno tomando um Drink com o velho safado. Isso até o raiar do dia seguinte, quando sem sobra de dúvidas eu estava muito pior. Nada melhorava, minha fobia matinal me atacava de forma aguda, o corpo latejava em desespero buscando uma rufada de ar fresco.
O dia se arrastava mais penosamente que ontem, e as dores já formigavam por todo meu corpo... não sai para comer, não sai para jantar, nem mesmo para abrir a janela. Me curvava feito animal covarde no canto de minha cama e rezava para santos de todos os altares. As paredes do quarto se jogavam contra minha cama, e o barulho antes agradável das pessoas se divertindo na piscina era uma sinfonia de terror, uma serra me atravessando a cabeça. Já em delírio febril, me imaginava tomando só mais uma cerveja, ou tendo um delicioso traseiro mulato rebolando na minha frente, por segundos me distanciava da dura realidade e logo sentia ser puxado com força desmedida de volta pra cama do quarto. Talvez tivesse sido melhor, procurar alguém, mas agora nem forças para sair da cama tenho, e o quarto não tem telefone. Tentava gritar, mas sei que uma pessoa do outro lado do quarto teria dificuldades de escutar mesmo o mais furioso dos meus gemidos débeis.
Queria ter vivido mais, não sei, a morte chegando disfarçada de resort paradisíaco de férias é algo que quase ninguém espera. Não li metade do que gostaria de ter lido, e não comi metade das garotas que me imaginei trepando. Na verdade não comi aquela em especial que invadia meu mais profundo subconsciente. Acho que vivi uma mentira até agora, só não consigo me lembrar do que fiz para merecer algo de bom ou de ruim. Passei em branco, queria ter cicatrizes de batalha no corpo, tatuagens feitas em uma prisão, queria ter tomado algum porre merecedor e não apenas impulsos infantis para chamar a atenção. Não quero dormir pois sei que amanhã não vou acordar... é uma pena meu corpo já estar atrofiado demais para sair desta jaula que me fechei. Se dormir talvez não acorde...
terça-feira, setembro 25, 2007
Um vagabundo de classe.
O groove do Jazz de Coltrane embalava o sono de Kim depois de horas retorcendo metal morto para construir uma estrutura miníma para lhe proteger de uma eventual chuva. Aquele garoto, com cara de homem que caíra da árvore de muito esperar, mostrava as contradições claras em sua ideologia Kurtiniana, viver intensamente e morrer rápido, que os céus tenham piedade. Seu tênis nike já havia percorrido muitos quilômetros a mais do que qualquer outro irmãozinho teria feito, sua calça jeans desbotava e misturava o azul fraquejante com o escuro das noites dormidas no chão, usava uma regata velha rasgada no pescoço para respirar melhor e estampando no peito seu gosto refinado; “Band of Outsiders”, ainda usava o suspensório que havia roubado de um amigo seu, queria ser chique apesar da sujeira que impregnava o resto das vestimentas, mas seu grande trunfo era o chapéu de copa baixa que havia comprado por cinco contos de um mendigo – mesmo tendo duas ou três manchas, era perfeito, lembrava uma figura grotesca saída de algum conto obscuro de Tenneessee Williams – e assim se esparramava em um sofá velho, que achará na porta de uma casa e levará para seu cantinho nos trilhos da antiga estação de trem abandonada, a música vinha da antiga e moderna vitrola que funcionava com pilhas, era uma verdadeira luta achar pilhas pra ouvir uma canção inteira.
Acordou.
Era manhã e o sol queimava impiedosamente a batata de sua perna, o que lhe não lhe parecia de todo uma má idéia, a fome lhe atormentava a anos e um suflé de batas a parisiana seria um pedido dos Deuses. Bocejou algumas vezes, coçou os olhos, coçou o nariz e buscou em sua velha mochila – velha de guerra – sua desgastada escova de dentes, a seco mesmo realizou o ritual que não necessariamente limpava os dentes, mas sim limpava a mente da insanidade da solidão. Ele tinha mais medo da solidão do que da própria morte. Buscou em sua sacola de feira uma banana suculenta que lhe fora presenteada. Tinha um pouco de pimenta também, nada melhor, banana com pimenta no café da manhã, padam padam padam, cantava com entusiasmo enquanto dançava categoricamente com seu guarda-chuva quebrado e abocanhava mais um pedaço de seu desejum. Sabia ter classe, buscava a dança em “Cantando na Chuva” e a canção de sua musa francesa Piaf. Era uma música bonita, cantava quando feliz, ou resmungava quando triste. Padam, padam padam...
Caminhava rumo a mais um dia. Mas de forma alguma seria um dia qualquer. Todos os dias eram dias únicos, afinal era uma longa trilha até o anoitecer, que era o amanhecer para sua vida boêmica. O centro da cidade o chamava, iria se encontrar com a ruiva do parque, uma vagabunda de classe que vivia nos seus moldes, e também degustava dos prazeres do jazz com pimenta e da culinária francesa tragada dos restos da burguesia robótica. Os dois curtiam um romance curto e breve, sabiam que duraria três ou quatro dias, assim seria eterno na memória de cada um. O sorriso amarelo estampado no rosto de Kim não afastava as pessoas de pata que corriam em seus trilhos malditos do dia a dia, mesmo tendo a aparência de um insano vívido vagabundo, sua faceta sorridente não demonstrava qualquer sinal de maldade, coisa rara nas carancas monstruosas que desfilam em alegorias fantasmas nas grandes avenidas desta capital.
“ - Olá, seu Pepe, tem jornal de ontem?! O que aconteceu com aquele filha da puta no congresso? Então é verdade? O seu Pepe me arranja uma moeda, vou comprar uma rosa pra minha namorada. Vale se Pepe. Gosto quando as coisas vão bem, é sinal que os passos devem ser mais firmes..”
Sentou no banco da praça cruzou as pernas, e sacou do bolso da calça um pequeno espelho quebrado, no qual já tinha se cortado inúmeras vezes, mas agora já havia domado o danado. Verificou os dentes, todos ali, e penteou o cabelo, meio duro, não saiu do lugar, mas melhorou, guardou o espelho. A leitura.
Continua... ou não...
quinta-feira, setembro 06, 2007
O Espelho
Deslocado. Locomover-se é um dos primeiros instintos desenvolvidos pelo homem, e é também um dos que fazemos sem o menor raciocino evidente. Nicolas, sempre achou ter personalidade e andar com objetividade, até se sentir tão deslocado que pouco ou nada fazia sentido. Nada o fazia querer viver mais do que o sentido de se achar no local correto e na hora certa. O sentido máximo estava em ser preciso. Ou era até perceber que nunca esteve tão perdido como nesta noite sem conhaque. Seus amigos riam e bebiam como se fossem os deuses do mundo, em breve se levantariam para vangloriar-se de sua potência, se auto afirmando deuses modernos. Os excessos eram encarados como prova de força, como ritos de passagens a serem superados a cada minuto. Não existia uma dose a menos ou uma noite a menos. Era tudo e nada sempre ao mesmo tempo, silêncio em muito barulho para mostrar o quão seguros de si podiam ser. Nicolas sentia nojo disso, mesmo sorrindo e brindando ao seu futuro brilhante como o advogado mais jovem a se formar no país. Ignorava sua família, que tanto lhe disse que o dinheiro não era tudo, não passavam de um bando de vagabundos, fracassados que não queria encarar a vida de frente e vencer. Sim, ele nascerá pra vencer e prosperar, tinha o foco claro, usaria as vertebras de seu irmão como degraus se fosse preciso. Deboche, raiva, remorso, saudade, felicidade, cinismo e intensidade.
Infelicidade.
Veracidade de todos os que o cercavam agora em mostrar o real carinho, aquele que é ganho com esforço de quem busca como um espartano a glória usando a agressividade e voracidade que o dinheiro faz na mão humana; exatamente como o pedaço de carne faz na boca do cão faminto. Desejo reprimido. Tecido de uma raiva crescente por suas origens. Saudades do Pitu, seu único amigo, um cão vira lata que tinha classe de rei.
Um longo corredor, o chão era de madeira, velha, provavelmente devorada por cupins, o tapete velho e desgastado era incessavelmente limpado para parecer novo, sobre o disfarce de incensos o cheiro de falsidade impregnado em cada ornamento das paredes, lindos detalhes em mármore rosado e diversos quadros de Rembrandt. Uma mobilia imponente expunha pergaminhos de John Fante e Fellini, lembranças de quem enxergou além e nunca foi compreendido, expostos como trofeus. As luminárias de cinco em cinco metros iluminavam constantemente o ambiente e davam a racionalidade necessária para admirar cada falso brilhante que esbanjava luxo e tendencias suicidas.
De perto tudo se transformava, o quadro que maliciosamente parecia se entortar, o cristal que se aclamava por atenção ameaçando-se tacar das alturas, a tapeçaria que corroída demostrava a decadência, ou mesmo a porta ao final do corredor que imponente virava apenas uma... porta.
Nicolas caminhava tudo isso com objetividade logo saíra e logo teria o encontro com seus falsos apoiadores morais. A glória se aproximava, o caminho era longo mas sempre chegava-se a algum lugar. A maçaneta fria, o sentimento de rendição, lembrou-se: sua família passava fome em algum lugar, porém não era culpa dele, ele fez de tudo para salvar-se... eles que o seguraram... tinha abandonado também a doce Margarida que tinha reparado sua inocência em um momento de humanidade contida e reprimida. Precisava se concentrar, “- pro inferno esses pesos que me seguram, vocês não são nada para mim.”
Girou a maçaneta, devagar, queria saborear a vitória, sentiu cada mola estralando e se soltando para entregar a vitória aos que lutam e Nicolas era um lutador. A porta se abria devagar e ele sentia até o golpe seco do ar fresco, primeiro sinal de liberdade. Seus olhos não podiam acreditar, a visão era...
A porta se abrirá, quando menos esperava com uma convicção e força únicos. Nicolas se sentia uma criança, um garoto, inocente e cheio de dúvidas, buscou o sentido naquilo. Achava que um dia cresceria e se sentiria completo. O terror do segredo guardado pela porta o apavorava, nunca tinha estado cara a cara com isto.
O espelho.
